Domingo, 23 de Outubro de 2011

João e Maria, José e Francisco

Ciúme: uma abordagem prática *

 

Uma das melhores formas de lidar com o ciúme consiste em eliminar a sua fonte. Dar-lhe um tiro na testa  é o exemplo que vem de imediato à memória, mas João procurava a chamada solução de compromisso. Como resolver o ciúme sem sofrer grandes penalizações sociais? João pressentia que a resposta se mantinha, embora numa interpretação menos literal. Havia uma natureza cirúrgica na eliminação da fonte que o seduzia, por possibilitar a restauração do amor. Mas demorou semanas a encontrar uma solução e, em retrospectiva, conclui-se que teve a sorte de ter nascido numa época em que a bissexualidade se banalizara. Porque a inspiração veio do relato de um amigo que se viu trocado por uma mulher. João reparou que o vasto conjunto de estados de alma por que passou o amigo incluía o conformismo, várias obsessões compulsivas  o espanto, a perplexidade e a raiva (a ordem é alfabética), mas não o ciúme. A conclusão pareceu-lhe evidente: o ciúme implica uma comparação, que só a pertença a um mesmo género concretiza, à semelhança das competições desportivas, em que os homens apenas competem com os homens e as mulheres com as mulheres. O namoro da nova namorada era um problema, mas de onde se excluía a namorada da namorada. Por redução ao absurdo, pouca diferença teria havido se a namorada se declarasse apaixonada por um vaso chinês da dinastia Ming (cópia ou original). Encontrada a essência da solução, João tratou de a aplicar. Maria trocara-o por José, um macho até prova em contrário, mas João percebeu que o importante era diferenciar-se de José a tal ponto que não haveria a menor tentação de se comparar. Foi sem dificuldade que encontrou em José um conjunto de defeitos físicos e de carácter que o aproximavam da condição de verme e o Zé volatilizou-se de imediato. A solução funcionou tão bem que Maria regressaria a João alguns meses depois, para dois anos felizes, até aparecer Francisco. Com a calma que vem da experiência, já depois de ter reunido os elementos necessários, João sentou-se pela manhã à secretária para estudar o dossier Francisco, mas ao fim dia estava por terra. Francisco era um gajo porreiro. Um tipo corajoso. Um homem de sucesso. Espirituoso. Inteligente. Talentoso. Charmoso. Atlético. Sólido. Belo. Alto. "E com cabelo", desesperou João, emendando in extremis o gesto de lançar as mãos à cabeça. Só no dia seguinte a solução lhe apareceu. O princípio mantinha-se e o que não podia ir pela desconsideração, iria pela promoção. Francisco estava tão acima de João que não era bem um homem, era uma entidade divina. Maria não se apaixonara, convertera-se. Veio o conformismo, várias obsessões compulsivas, o espanto, a perplexidade e a raiva (ainda por ordem alfabética), e dias depois João estava recuperado. Maria não voltou, mas até nisso João foi capaz de ver a prova de que não se enganara no juízo, pois não se abraça uma religião com leviandade.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 13:48
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2 comentários:
De andreia am a 24 de Outubro de 2011 às 14:38
eh eh eh eh eh eh eh eh eh eheheheheheheh. Muito bom!
De Sílvia a 26 de Outubro de 2011 às 10:50
É. Tudo depende sempre da perspectiva. E podemos ser de facto muito habilidosos na interiorização menos onerosa de certas realidades. Resta saber se a construção ou descontrução cumpre certos requisitos de fidelidade histórica. Bem...que seja para chegar a um lugar melhor.

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