Sábado, 22 de Outubro de 2011

Polaroids londrinas

“Smoke lingers round your fingers/Train, heave on to Euston/Do you think you’ve made the right decision this time?” – London (The Smiths)

 

Esta pergunta sobre a decisão correcta acompanhou-me nas minhas últimas semanas lisboetas, uma pequena angústia a lembrar-me se valeria a pena voltar a aventurar-me para outro país. Porque a vida (a “vidinha”) estava organizada em Lisboa, porque felizmente não era obrigado a sair por razões profissionais (tenho um trabalho que viaja comigo na mala de mão), porque era mais fácil ficar, porque já tinha na cidade as rotinas definidas, as caras conhecidas, os rituais antecipados.

 

No entanto, fundamental na decisão de sair tinha sido a vontade de retirar do sótão a energia para me adaptar a um novo lugar e descobrir novas paisagens e ideias (isso e a utilização excessiva dos diminutivos em Portugal, com tudo o que isso comporta). No fundo, um desejo de parar, observar com mais atenção e descobrir novos pormenores que se vão cruzando comigo na rua. Instantes banais desta cidade que pretendo captar e ir descrevendo em postais londrinos.

 

Como a imagem de um casal de idosos que arruma vagarosamente os seus produtos na sua merceearia numa rua para os lados de Portobello e as suas casas vitorianas impecavelmente arrumadas. Ele, de calças de bombazina e casaco de malha, elegante e altivo, representa a imagem feita, quase caricatural, de um “típico” cidadão britânico. Ela, mais pequena e bonacheirona, é uma das londrinas que pontua cada frase com “dear” e “love”. A sua frente de loja em madeira verde anuncia com orgulho, numa frase pintada à mão, que o negócio “E. Price & Sons” existe há mais de 60 anos. Adaptando-se ao tempo, vendem agora também “foreign fruitage”, no que parece ser a única alteração à decoração dos anos 50.

 

Mais à frente, na mesma rua, uma peixaria marroquina, um restaurante italiano, um mercado de rua e a sua alegre confusão de panos, panelas e especiarias. Ouve-se o muezzin a chamar para a oração e um grupo de muçulmanos entra numa mesquita discretamente instalada num dos prédios de dois pisos. Na próxima esquina, o “Café Porto” concorre com a “Patisserie Lisboa”, do outro lado da rua, pelo cenário mais português suave do dia, cada qual com as suas senhoras a comentarem as últimas do bairro e as páginas do Record (vendido por uma senhora chinesa na papelaria ao lado) prontas a serem discutidas.

 

São momentos de bairro que permitem parar para respirar uma tranquilidade que esta cidade – dinâmica, electrizante, por vezes agressiva, solitária também – por vezes esquece, na sua ânsia de alojar 8 milhões de pessoas de 270 nacionalidades diferentes, falar 300 línguas diferentes e levar diariamente para casa 3 milhões de pessoas no metro. Muito apertadas, é certo, mas estranhamente simpáticas.

publicado por Ricardo Correia às 16:40
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