Sábado, 5 de Novembro de 2011

António (Tó)

Ciúme: uma abordagem prática (4)

 

Tó, que nem sequer se poderia descrever como uma pessoa gregária ou simpática, ganhou a mania de se aproximar deles e nisso era muito bom. Se ainda não os conhecesse, tornava-se amigo; se já os conhecesse, passava a ser o melhor amigo. Quando lhe diziam que era uma forma de as castigar, o seu rosto ganhava surpresa e indignação. É certo que elas não gostavam de competir com ele pela atenção do namorado, mas nunca passou pela cabeça de Tó sabotar uma relação. Ele experimentava um tropismo incontrolável por eles, que era ainda maior quando percebia que tinha sido encornado. O que dizer? Há na mente mais mecanismos do que aqueles que a mente pode conhecer e se os suecos raptados que ganharam afeição pelos raptores chegaram aos manuais de psicologia (o complexo de Estocolmo), só a subtileza do seu comportamento, uma geografia periférica e nenhum grupo de pressão com vontade de associar Lisboa à imagem de cornudo frouxo negavam a Tó idêntica consagração.

 

Tó procurava colmatar o sentimento de orfandade. Mais do que trocado, ele sentia-se abandonado. Talvez por isso lhe fosse tão natural a aproximação a quem passara a ter as atenções da sua antiga namorada. A sua técnica foi-se apurando ao longo dos anos e se um murro no olho não o demoveu, também não seria uma porta fechada na cara, um telefonema desligado ou os repetidos insultos que o fariam desistir. Tó aprendeu a escolher o momento ideal, quando eles estavam fragilizados. Esperava uns meses, para que passasse o estado de graça dos novos namorados e fazia-o com a paciência de um abutre a pairar sobre a carcaça que o predador ainda escarafuncha, mas também uma bondade que é estranha aos necrófagos. Em poucos dias, Tó e qualquer um deles iam beber copos sozinhos e falar longamente sobre ela. Mas quem apenas ouvisse parte da conversa, mais depressa pensaria que falavam sobre um Buick do que sobre Bárbara, pois animava-os a cumplicidade de quem partilha um passatempo raro, como coleccionar carros antigos. E isso bastava a Tó, que assim namorava unilateralmente por interposta pessoa. Na verdade, ele foi descobrindo tantas vantagens nesta sua rotina, que seduzir e começar relações passou a ser sobretudo uma forma de semear um futuro namoro vicário. 

 

Abordagens prévias: 12, 3.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática

publicado por Vasco M. Barreto às 09:40
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