Sábado, 15 de Outubro de 2011

Boquilobo

Lobo Antunes só não seduz quando lhe fazem perguntas sobre tricas e prémios literários, altura em que desce tanto das alturas que se torna ligeiramente rastejante. Em tudo o resto, tem um discurso tão nos antípodas da langue de bois dos políticos que por momentos há o risco de tomarmos o sábio pelo louco. É única a sua capacidade de se demarcar da actualidade e de mexer com a essência das coisas, distinguindo-se dos pedantes e dos diletantes. Pode ser pose, mas quantos a aguentariam durante tantos anos, sem uma falha? Ele lembra-me as master classes dos concertistas de idade avançada, já sem a agilidade dos dedos dos estudantes, mas ainda capazes de exemplificar uma passagem difícil de um modo luminoso, ainda que impreciso. A isto creio que se chama transcendência.

 

A marca de água do seu falar é a citação, que lhe sai com grande naturalidade e não parece apenas ser uma citação oportuna, mas a mais oportuna - de resto, quando há dúvidas, é o próprio Lobo Antunes que resolve a contento, recorrendo a duas citações que exprimem a mesma ideia. E mesmo quando não está a citar alguém, geralmente um outro escritor, cita-se a si próprio. Não sei se é efeito de quem já deu demasiadas entrevistas ou de ter encontrado o ritmo de discurso que melhor aproveita a inteligência e a memória, o certo é que ele nunca pensa alto, nunca inventa, nem sequer descobre, limitando-se a recordar. Daí resulta uma enorme autoridade ou, se me permitem, gostaria de pensar que a autoridade que lhe reconheço não vem do seu currículo. E este não é um fascínio acrítico de fã; quando começa com a explicação de que os livros se escrevem sozinhos, murmuro um here we go again. Mas quando ontem disse que tinha muito orgulho em ser português, reparei que ninguém mais me pareceu tão convincente e cheguei a sentir um daqueles apertos só arrancados pelas bandas sonoras que marcam o momento em que o mais fraco inverte a tendência. Ontem não havia desses enredos, que são lágrimas enlatadas. Era só o Lobo a falar, entre a espada desajeitada de Fátima Campos Ferreira e a parede de livros. No fim senti-me desconfortável, como sempre, porque gosto tanto de o ouvir que preferia que ele falasse mais e escrevesse menos. 

publicado por Vasco M. Barreto às 13:00
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