Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

brown e aquilo que não vivemos

metendo-me na conversa

 

Vi Ian Brown uma única vez e já no tempo póstumo.

Claro. Preferiria uma sala mítica no breu de Londres ou um festival celebrado no auge dos Stone Roses, mas isso seria padecer em grau demasiado grave da nostalgia de uma vida que não se viveu. Quem ande pelos trintas e picos já chegou tarde para uma série de coisas. (Na verdade, todos chegámos. Há sempre uma saudade mítica de qualquer coisa que acabou mesmo antes de nós. Há sempre um remorso ilógico que nos faz culpar a nós mesmos por termos chegado um pouco tarde de mais para qualquer coisa que deveria ter sido nossa.) Com os anos, aprendemos a resolver e perdoar. Somos do tempo que somos, o que, em muitos casos, significa ser do tempo do fim e do fumo melancólico que percorre os salões vazios depois da festa, e nada há de errado nisso.

Empolgado como uma criança pequena que espera a hora dos desenhos animados (isto é coisa do nosso tempo. Hoje, há uns mil canais que passam desenhos 24/7.), ansiei dias inteiros pelo momento e, muito antes da hora certa, estava já plantado nas grandes, a metro e pouco do palco secundário da Herdade – isto é nome que dificilmente fica na história do cool – do Cabeço da Flauta. Julho passado. Super Bock Super Rock. Vocês sabem do que eu estou a falar.

Enquanto um grupo de portuenses mais novos, mas, valha a verdade, mais conhecedores de letras e artimanhas furava até à frente gritando que o Ian Brown era pai deles, descia mentalmente a fasquia da expectativa até aos tornozelos. Estava ali para ajustar contas com o que vivera de raspão. Não queria assistir a uma imitação decadente de Ian a fingir que ainda era Ian, dos Stone Roses sem Stone Roses. Aceitava não ouvir nenhum dos temas que nos encheu dos mesmos sonhos de grandeza de quem os escreveu e cantou (recordo-me agora de um episódio de muitos anos antes. Uma festa qualquer. No coração da noite, o dj lança “I Wanna Be Adored”. Todos dançam. Muitos, na cintura da pista, apenas porque sim, porque dançariam qualquer coisa. Outros, ao centro, porque a música nunca poderia ser melhor do que aquilo. Percebo então que um tipo ali perto que berrava e se descamisava com o mesmo frenesim que eu, não articulava rigorosamente as mesmas palavras. Fixei-lhe os lábios até perceber o que dizia. Dizia: “I wanna be your dog”. Mas estava radiante na mesma. E isso é tudo).

Regressamos às grades do palco secundário do Cabeço da Flauta, Julho. Aceitava então não ouvir nada do que já não era. Queria apenas um ponto final. O nosso momento decadente e póstumo. Com uma única exigência: “Sweet Fantastic”, um desses temas de que falavam os Smiths e que me salvou a vida, uns anos atrás, depois de ter comprado ao preço da uva mijona “Solarized”, na liquidação total da discoteca Roma.

Material em palco. O contorno do rosto de Brown no bombo da bateria, imagem cristalizada do tempo em que acreditava ser a ressurreição, para nos lembrar de quanto passara entretanto. Finalmente, os artistas. Ian e os outros, para que tirássemos as dúvidas: estava vivo, com efeito, mas isto de ressuscitar deixa as suas marcas.

Brown dançou no jeito macaco de sempre, exibiu a camisolinha de fato de treino sem pretensões, agradeceu tudo, o entusiasmo louco daqueles nortenhos que diziam ser filhos dele e o do rapaz do lado que não dizia grande coisa. Cantou bem, depois mal, depois já não acertava uma nota. Mas houve momentos em que, naquela pequena noite, naquele pequeno palco, juraria que o homem voltava a sentir-se grande. Eram instantes. Relances brevíssimos que lhe cruzavam o olhar, quando parava, sentindo a multidãozinha. Parecia dizer para si mesmo: ainda sou capaz. Ainda consigo ser grande. Adorado. Mas isso logo passava e voltava ao aspecto de vaidoso-anónimo que frequentou os vaidosos-anónimos para se desintoxicar do excesso de amor-próprio.

Uma hora depois, tinha acabado tudo. Não houve “Sweet Fantastic”. Reconhecível, “Time Is My Everything” e pouco mais.

Não faz mal. Um dia, ressuscitaremos outra vez.

Até lá, continuarei a dançar “Made Of Stone” como um louco sempre que passe, das raras vezes que passa, numa pista por aí.

Mas isso é comigo.

publicado por Alexandre Borges às 06:58
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4 comentários:
De Nuno Costa Santos a 17 de Outubro de 2011 às 15:17
Lindo, meu irmão! Abraço! Nuno

(vou já levar isto para o facebook:), onde te quero ver um dia, para partilhares estas coisinhas boas que te passam pela mona - e pela pena)
De Alexandre Borges a 18 de Outubro de 2011 às 01:44
:) Admito que, se algum dia cometer essa loucura, será única e exclusivamente motivado pelos teus argumentos. Abraço!
De pedro f a 19 de Outubro de 2011 às 18:04
Muitos parabéns. A coisa ecoa mesmo.
ps: conheço uma pista que recebe bem vários temas de made of stone (ali para sta apolónia...)
De Alexandre Borges a 20 de Outubro de 2011 às 14:02
Obrigado, Pedro. Vou investigar...

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