Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Amanhã

Ando a tentar deixar de fumar há mais de trinta anos. Estou convencido que no dia posterior ao meu primeiro cigarro decidi deixar de fumar. Neste momento tenho um cigarro posado no cinzeiro e os pensos de Niquitin à minha frente. Amanhã ia ser o dia em que o tabaco deixaria de me dar dores de cabeça, em que ia começar a subir dois lances de escadas sem ter de parar a meio, em que ia deixar de ter lancinantes ataques de tosse de manhã, em que a minha asma acalmaria, em que o meu carro deixaria de ser um cinzeiro ambulante, em que os meus filhos me iam agradecer não viver numa permanente névoa. Recebi, porém, um telefonema. Era um convite irrecusável e que obriga, para mal dos meus pecados, a muito trabalho. Não dá para cumprir a tarefa sem cigarros. O problema é que todos os trabalhos, todas as mais corriqueiras actividades são importantíssimas e infazíveis se imaginar que não vou ter o tabaco como parceiro.

Tem sido assim toda a minha vida: passo noites em claro a pensar no mal que o tabaco me faz, lembro os amigos que morreram com cancros provocados pelos cigarros, faço a mim próprio promessas solenes. Levanto-me, tusso e passado uns minutos, em raros dias umas horas, lá acendo o primeiro dos muitos cigarros diários. Os cigarros são a prova provada da minha fraqueza, da minha falta de força de vontade. Já tive depressões por não conseguir deixar de fumar. Escusado será dizer que durante as semanas de depressão continuava a fumegar.

Para o mal, nunca para o bem, os cigarros são a única coisa constante e permanente na minha vida. Lembro-me dos cigarros sugados nas escadas da maternidade onde nasceram os meus filhos, daqueles consumidos antes dum negócio importante, dos que me ajudaram a pensar quando decidi mudar de vida. Os cigarros estiveram lá sempre: nas alegrias, nas tristezas, nos momentos de tédio, nos de euforia, nas minhas vitórias, nas minhas derrotas.

Nos dias em que estou particularmente cretino e que por milagre não estou com falta de ar chego a pensar que há algo no meu subconsciente a impor-me fidelidade a algo que nunca me abandonou – quando mais racional sei que é um produto causador de dependência. É verdade, a minha estupidez atinge esses níveis.

É amanhã, é amanhã.

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:00
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6 comentários:
De Anónimo a 11 de Outubro de 2011 às 10:58
Assino em baixo... :)
De gracinda castanheira a 16 de Outubro de 2011 às 02:00
Eu também, infelizmente
De andreia am a 11 de Outubro de 2011 às 14:12
Nós não temos amanhã pá! (Desculpe o pá.) Só HOJE(S)!
De Teresa Isabel Silva a 11 de Outubro de 2011 às 14:22
Antes de mais, tenho que te dar os parabens pelo destaque.
Quanto ao texto, eu não poderia estar mais de acordo quando dizes que fumar é uma fraqueza. Ainda ontem estava a fumar e a pensar na maneira como me tornei tão "agarrada" e o motivo pelo qual me parece tão cómodo fumar...
Abraços
De Anónimo a 11 de Outubro de 2011 às 14:41
Fui fumadora inveterada durante 40 anos. Nunca pensei em deixar de fumar pois dava-me imenso prazer e era condição sine qua non de desenvolver capazmente a minha profissão. Quando os fumadores começaram a ser maltratados ainda caprichei mais no meu querido vício. Mas a nossa vida de fumadores começou a ser um inferno. Foi uma grande derrota filosófica mas decisão acertada, ao que dizem, para a saúde - deixei de fumar, sem dramas. Como? Com umas consultas médicas e 1 perigoso remédio - Champix. Deu resultado e não fumo há ano e meio. Acho que vale a pena experimentar. Nunca na minha vida pensei que conseguiria semelhante feito. E juro que não foi nada difícil com este medicamento. Quanto aos pensos ou pastilhas elásticas, não me parece que funcionem muito bem.
De golimix a 11 de Outubro de 2011 às 14:48
Não sou fumadora. Mas meu pai é e meu irmão também.
Sei que parece difícil deixar! Eu tenho uma dependência muito parecida, mas que cheira e sabe melhor! Dependo do chocolate

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