Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

portuguese graffiti

Quando um tipo se senta a escrever sobre qualquer coisa, deve começar por escolher um assunto novo. Como assuntos novos são coisa que aparece tanto como neve em Copacabana, deve ter, pelo menos, o cuidado de abordar o assunto velho com uma perspectiva original.

Ora, queria escrever sobre graffiti e a perspectiva nova seria dizer que aquilo é uma maravilha, mas a coluna vertebral de jovem trintão já não me permite tanto contorcionismo. E, dito isto, peço misericórdia por escrever sobre um assunto velho por uma perspectiva velha, mas, ei, os graffiters também não têm inventado muito.

Sim, bem sei que me dirão que os graffiti são uma coisa, os tags outra e que deve haver mais umas quantas variações entre um extremo e outro. Simplifiquemos. São coisas rabiscadas em paredes. Haverá as bonitas e as feias; os artistas e os parvos. Naturalmente, aqui falamos dos parvos. Como há gente que não devia conduzir, gente que não devia ser chefe nem de si mesma, gente que não devia vestir mini-saia, gente que só devia abrir a boca para dizer o estritamente necessário à sua sobrevivência, há gente que nunca se deveria aproximar de uma parede (excepto, talvez, com a cabeça).

O rabisco na parede, espécie de assinatura ilegível, não tem qualquer aspiração artística; é assumidamente uma mijadela que marca território. Eu estive aqui, dizem eles. Eu estive aqui e vejam o que faço às vossas casas bonitas, às vossas obras de arquitectura, à vossa cidade, ao dinheiro e ao esforço que acabaram de despender a pintar a casa. Haverá, digam-me, acto mais cretino, mais imberbe, mais infantil, mais sintomático de um profundo atraso mental, mais – de resto – exemplificativo do tempo relativista que vivemos em que nada tem valor a não ser a afirmação de si mesmo, como se o simples facto de existir merecesse um prémio e não fosse tão digno de aplauso como a existência dum caracol, duma lesma, dum fungo, duma erva daninha, duma flatulência?

Como se acaba com isto? Proibindo a venda daqueles sprays e tintas, mas logo arranjariam outras coisas com que escrever, nem que fosse com sebo. Partir-lhes, um a um, os dedinhos de ambas as mãos? Sem dúvida, mas logo as consciências morais da nação bradariam contra o autoritarismo e as outras coisas do costume. Só com a educação de uma sociedade que acabe com os putos mimados, as celebrações pessoais de nulo valor, que nos reconduza à admiração do belo (poderia dizer do bem, mas a coluna também já não me permite ingenuidades dessas), mas isso levará séculos.

Até lá, proponho um mal menor. Um graffiter justiceiro que vá por cima dos outros graffiti e lhes corrija, ao menos, os erros ortográficos.

É o mais tolerante que consigo ser. Quem der erros, só pode gatafunhar em túneis e pilares de viadutos. Para escrever nas paredes da Baixa, só com escolaridade obrigatória.

publicado por Alexandre Borges às 07:17
link do post | comentar
2 comentários:
De manuela a 26 de Setembro de 2011 às 11:50
também eu sou assim tolerante...
De Isa a 26 de Setembro de 2011 às 17:24
Com a cabeça, decididamente com a cabeça.
mas eu gosto dos coloridos, street art, parece que lhe chamam. sao paulo é um inferno, tudo horrível por causa disso. mas qd são desenhos é giro :) e raro, mt raro.
marcar território nao, credo, nao temos mais idade pra isso...
Bjo

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever