Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

crónicas

Já me irritaram muito as pessoas apaixonadas por sítios tão estapafúrdios como S. Martinho do Porto ou Moledo. Lembro-me de ter escrito uma croniqueta a gozar violentamente com os fanáticos frequentadores desses lugares. Ir para um sitio onde está sempre frio, fazer praia num local onde tomar banho de mar é arriscar não poder voltar a procriar, não se enquadrava propriamente no meu conceito de férias de Verão. Depois, aquela história de “a minha família vai para lá há gerações” eriçava o novo-remediado suburbano que há em mim. Apetecia-me sempre dizer: “ora porra, a tua família ia para lá porque a malta ia para a praia de fato e gravata e aquilo era o que se assemelhava mais a uma estância balnear a menos de cinco horas de caminho. Tivessem carrinhos e auto-estradas, e andassem de calções e camisetas e sempre queria ver se não iam para um sítio quentinho? “

Agora já não me enervam tanto Moledos e quejandos. Até lhes acho piada: a sensação de se estar num local perdido no passado, o estar num sítio frio quando a turba se está a torriscar em Vilamoura, o ficar no café à conversa com um tipo que só vemos naqueles dias. As partidas de lerpa à noite em frente a um aquecedor.

Li, já não sei onde, que o cronista relata uma realidade quotidiana, um sentimento, uma sensação através dos seus óculos. Mais embaciados hoje, com lentes escuras amanhã, com uns riscos depois de amanhã. A mesma realidade, o mesmo tema, muda quando nós mudamos. E nós mudamos, oh se mudamos, só que as nossas mudanças vêm para frente e para trás. Hoje execramos Moledo, amanhã até achamos o local interessante. Umas vezes reconhecemos isso, outras vezes não. Só que quando escrevemos as nossas contradições ficam ali sem que as possamos negar. E é por isso que o cronista é um tipo essencialmente honesto. De tanto olhar para as mesmas coisas – e, no fundo, escrevemos sempre sobre meia dúzia de assuntos –, de tanto se contradizer, percebe que as suas convicções são frágeis, que tanto pode ver graciosidade numa aranha, como achar o bicho nojento. Não existem crónicas verdadeiras ou análises à prova de bala. São como nós: imperfeitas e inseguras.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:46
link do post | comentar
2 comentários:
De George Sand a 21 de Setembro de 2011 às 00:02
Eu gosto de um sitio muito estapafúrdio como S. Martinho do Porto. Exactamente por isso...porque é bom recordar, rever. Também gosto de sitios novos e diferentes e onde o Inverno não passa férias, obrigatoriamente.
De João Cruz a 26 de Setembro de 2011 às 12:59
São Martinho do Porto...estapafúrdio? Talvez em Agosto o seja, efectivamente, tanta a quantidade de "olá tio" e "olá tia" que por lá pulula . No resto do ano, é o paraíso na terra, tranquilo, bonito e com gente boa. Caro Pedro Marques Lopes, aconselho uma visita a São Martinho do Porto, durante a semana, nesta época do ano, para apreciar uma baía única em Portugal, cuja qualidade está muito acima daquilo que era há uns anos atrás.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever