Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Voo S4 0124 Ponta Delgada-Lisboa

 

 

Nem sempre nos lembramos do lugar onde fomos tocados pela fé. Onde Deus tocou com o seu cachucho de diamantes no nosso ombro esquerdo. Comigo aconteceu em São Miguel, Açores. Foi nessa ilha que me tornei um melómano, um crente musical, sempre disponível para os mais diversos cultos às mais variadas divindades sonoras (Lembro-me disso agora que sobrevoo o Atlântico, em silenciosa viagem de regresso a Lisboa, e saco o canhenho para umas notas).

 

Foi aí que conheci (e me embrulhei com) os Clan of Xymox, os Pixies, os My Bloody Valentine, os Cure, os Shamen, os 808 State, a Meredith Monk, os Ride, os Trisomie 21, os Go-Betweens, o Wim Mertens, os Happy Mondays, os Stone Roses, os Farm, os They Might Be Giants, os Wolfgang Press, os Galaxie 500 - e uma data de moçoilas que, em geral, não tinha grande paciência para essa gente.

 

Foi na ilha de São Miguel - onde cresci e me preparei para a engorda lisboeta - que, na mornaça dos sábados à tarde, fiz um programa de rádio com uns amigos. Um programita que serviu para comunicarmos ao mundo os nomes das bandas esquisitas que andávamos a ouvir e, em consequência disso, preocupar seriamente os nossos pais e limitar a sua vida social. Sim, foi em São Miguel que com esses mesmos amigos organizei festarolas em que o traje obrigatório era uma t-shirt psicadélica (ou melhor: uma t-shirt da Regisconta decente e sóbria posteriormente devassada por intervenções à Pollock - e à Pauleta). Sim, há uns 15 anos, houve uma secreta geminação entre Manchester e a Lagoa das Furnas.

 

E é em São Miguel, Açores, que ainda hoje - como é que hei-de isto para parecer bem lamechas? - a música me entra melhor. Com menos ruído e comentário. Com mais emoçãozinha. Juvenil, pueril, qualquer coisa acabada em il. Sobretudo se a ouvir, como aconteceu há pouco, numa viagem de carro pelas estradas da ilha. Mas isso das cassetes gravadas para apreciar na carripana fica para outra crónica. Talvez para a próxima.

 

 

(Agora que preparo a ida para São Miguel com a minha equipa de filmagens  - Nuno Simões, Tiago Carvalho, Filipe Tavares, Leandro Silva -, republico uma crónica originalmente publicada na revista "Atlântico", em Julho de 2006, sobre o sentimento  que está por detrás desta ideia de realizar um documentário  acerca desse gesto de ir buscar os discos que foram deixados na ilha).

publicado por Nuno Costa Santos às 15:55
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1 comentário:
De Maninha a 10 de Setembro de 2011 às 20:20
Traga Mr. Barreto consigo. Depois de tanta literatura sobre o 11 de Setembro, fazia-lhe bem uma voltinha de avião.

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