Sábado, 10 de Setembro de 2011

10 anos

Terrorist, Falling Man e Saturday são tês romances  associados ao 11 de Setembro. Não os consegui terminar. Seria abusivo fazer destes abandonos prova de que recuso a estetização de acontecimentos globais, terríveis, polarizadores e próximos. É verdade que todos parecem competir pela melhor redacção da turma e nem sempre regresso feliz dos reenvios à instrução primária; é verdade que sobra a sensação de que a arte se limita a parasitar a actualidade; é verdade que o romance ainda me parece ser a forma menos adequada de se discutir uma ideia; é verdade que a simples contemporaneidade com o evento nos torna sobranceiros face aos esforços dos outros; mas admito hoje, pela primeira vez, que talvez alguns destes livros apenas precisem de amadurecer, como se o facto de estarem a priori datados facilitasse a evolução futura na única direcção possível: a da intemporalidade. Em todo o caso, parecem trilhar o caminho oposto ao dos ensaístas, pois ler o Hitchens de então é mais interessante do que ler o Hitchens de 2011 sobre 2001 - menos por o artigo omitir o embuste das weapons of mass destruction do que pela tendência natural de se fazer da coerência uma força transformadora da História. Vence então o romancista, se não se lembrar de uma sequela e resistir a prefácios e posfácios, pois a vida própria que o livro ganha é uma daquelas em que não acontece mais nada senão envelhecer. 

 

A operação militar Shock and Awe veio lembrar-nos que a tentação dos nomes extraordinários resistiu ao ataque às torres, cujo contrastante e lacónico baptismo de data reforça a ideia de que aconteceu algo de inominável. Se foi por um pudor ou ideia de uma equipa de comunicação formada ainda as cinzas pairavam sobre Manhattan para evitar promover a Al Qaeda ou fazer do cérebro do atentado um Heróstrato moderno, nunca saberemos. O uso de "11 de Setembro" foi um sucesso de tal ordem que julgo não voltar a presenciar outra efeméride tão instantânea, mesmo tendo em conta a volatilidade dos mercados e que a pontualidade na abertura das bolsas se presta bem a consagrações de calendário. Talvez por alguma idiossincrasia minha, fui depois sentindo que reforçar a data não a fixava no tempo sem consequências, pois parecia distorcer o calendário, como se 11 de Setembro de 2001 fosse um corpo em torno do qual tinham passado a gravitar outros eventos, alguns com órbitas largas, como a guerra Irão-Iraque, outros com órbitas apertadas, como o enforcamento de Saddam Hussein - e embora a ordenação das órbitas concêntricas ainda respeitasse a cronologia, os seus autónomos movimentos de translação sugeriam que estaríamos na presença de inevitabilidades. O 11 de Setembro acusaria então um excesso de presente, como Portugal acusa um excesso de passado e Pedro Passos Coelho acusou em tempos excesso de futuro. Este efeito da gravitação do tempo em torno do 11 de Setembro tem manifestações viciosas, de que ainda são exemplo algumas discussões sobre as causas últimas próximas da Guerra do Iraque, e outras francamente divertidas, como a que me leva a fazer de Jarhead o Apocalipse Now do 11 de Setembro, embora o filme relate a Guerra do Golfo, que é de 1990-91.

 

As efemérides servem para que não nos esqueçamos, mas excepcionalmente podem assinalar o fim de um luto, servindo então para não nos lembrarmos tanto de aí em diante. Assinalarei a data com um regresso a Falling Man, de Don DeLillo. Há no livro duas crianças que vigiam os céus de uma janela com uns binóculos, temendo a chegada de Bill Lawton. É assim que "Bin Laden" soa aos ouvidos das crianças americanas e é tempo de gostar disto, se nos soa bem. 

 

 

 

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 16:00
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