É uma coisa silenciosa, que é como dói mais. Um gesto discreto, porque pressupõe a evidência da situação. A constatação de uma superioridade que conta, de antemão, com o reconhecimento tácito por parte do ser inferior. Entram no elevador, vêem o piso zero seleccionado, introduzem a chave que dá acesso aos pisos do parque e depois fazem-no. Rodam ligeiramente o pescoço e arqueiam a sobrancelha com precisão geométrica, dizendo: “Tu sabes que eu sou melhor, não sabes?”. E seguem o resto da viagem de queixo erguido e olhar fixo num horizonte elevado, passando em voo rasante sobre a nossa cabeça, subitamente enterrada entre os ombros.
Donde veio isto, não tenho ideia. Mas ter um lugar de estacionamento, tornou-se, parece, a palma olímpica. Imagino pais perguntando às filhas casadoiras: “Quero lá saber se ele é bom rapaz! Tem lugar no parque da empresa ou não tem?”. E, a partir daí, tudo é possível: “Sim. Ele tem mais 65 anos do que eu, esteve preso nos últimos 40, está todo cheio de doenças, abandonou as últimas três mulheres e os 15 filhos à fome e diz que só me quer para cozinheira e escrava sexual, mas tem lugar no parque da empresa.” Pais: “Filho!!!!!”
Sim. Segundo a ética contemporânea – aquela onde toda a gente tem um blackberry, um cargo em inglês na assinatura do email (um estafeta é, por exemplo, um Senior Delievery Specialist) e toma brunches em vez de – q’horror – pequeno-almoço, é desprestigiante respirar o mesmo ar que o resto da espécie. Ter de cruzar a recepção do prédio, passar pela mesma porta por onde – asco – toda a gente passa e, imagine-se a pelintrice, caminhar pelo próprio pé até à viatura ou – artimanhas do demo – transporte público, é atestado de falhado (na assinatura do email, ler-se-ia: “Senior Losing Executive”).
As lutas fratricidas dentro das empresas por quem tem direito a lugar de estacionamento e porquê. A magnanimidade com quem alguém cede solenemente o seu lugar no parque quando vai de férias. O choque desalmado perante a descoberta de que alguém estacionou, impiedosamente, o seu carro plebeu sobre o sagrado lugar de outrem.
Antes, queríamos um lugar no céu. Agora, um lugar no parque. Chamem-me retrógrado, mas preferia a primeira. Se me arqueassem a sobrancelha, é porque, ao menos, devia ter feito alguma coisa agradável.
Claro: somos crescidos, já sabemos como é. Nascemos, morremos, coisa natural, «é a vida» como somos ouvidos a dizer estupidamente nos velórios dos nossos parentes.
É a vida mas é o caralho.
Da vida rejeito a morte. Entendo-a, lido com ela, tenho até a dádiva da Fé. Mas não me obriguem a aceitá-la, não me obriguem a resignar-me num final tão chocho, tão previsivel, tão foleiro.
Eu escrevo zangado. Estes dias têm levado muitos que conhecia e privei. Leio dilacerantes declarações públicas de amor de um amigo e mentor e, mesmo através daquela sábia e terrível beleza, percebo o desespero, o náufrago envergonhado que anuncia a deriva que sempre sucede à perda.
O que nós contemos é demasiado para acabar. Acredito que a imortalidade possa ser uma grande maçada, ainda por cima sabendo que nós humanos não somos flores que se cheirem. Mas admitamo-lo: viver sabe a pouco, mesmo quando se morre de excesso de vida.
Não há refúgio possivel nestas alturas: leio Unamuno, leio Séneca, leio a minha Bíblia e não há santuário nem consolo. Depois passa. Mas volta, volta sempre.
Estou zangado. Apetece-me grafittar esta cidade que está luminosa com a frase do Sénancour: «Se é do pó que viemos e é para o pó que vamos façamos que isso seja uma injustiça». Mas em vez disso tenho de fazer um perfil jornalístico de alguém que conheci e gostei e reler as suas entrevistas antigas e voltar a reencontrá-lo nas palavras que sobreviveram ao pó.
Eu sei que a vida é injusta. Mas não me obriguem a aceitar a morte.
Acho que é o senhor Albert Camus (sim, esse) que tem um conto em que um homem isolado escreve, na solidão do seu quarto, uma inscrição que não se percebe se é “solitário” ou “solidário”. Não tenho a certeza. Mas se é só lhe fica bem ter tido essa ideia no papel. Porque de facto muitas vezes as condições tocam-se. Há muito bom solidário solitário. Há muito boa solidão que se quer dar aos outros, que se quer abrir ao mundo. Só não percebeu como. Até porque os dias não estão para isso. Os dias não estão para gestos largos, generosos, maiores. Não falo apenas da falta de condições financeiras para ajudar quem precisa (tanta gente, caramba!). Falo do cinismo que se instalou e que é, para citar o economês de esquina, um verdadeiro programa de desincentivo ao investimento de quem descer à rua e começar a perceber quem os são os vulneráveis do bairro. Dos mais velhos aos mais pobres.
Tornou-se ainda mais difícil tentar ser solidário num mundo que promove não só a solidão mas sobretudo o individualismo blasé. A boca de balcão. Ou de twittada. Tornámo-nos cínicos – e não daquele cinismo bem-humorado e elegante, que põe em causa só para chatear; daquele cinismo que seca - e se calhar ainda não percebemos que essa é a maior doença deste tempo. Os centros de saúde espalhados pelo país deviam ter consultas para acabar com este cinismo, com esta patologia que questiona cada gesto de amor, cada tentativa, que mata quem tenta e se esforça. “Foste ajudar aquela senhora a atravessar a rua? Isso é porque te queres sentir melhor!”. Estão a perceber o que digo? A especialidade da casa – esta casa que habitamos chamada mundo - tornou-se a problematização. Nisso ninguém nos bate: somos muita bons a problematizar. E nisso, repito, não há solidariedade como a nossa. Estamos sempre prontos a ajudar quem tomou a decisão de arregaçar a manga para ajudar quem precisa. Ajudar a quê? A fornecer-lhe problemas à cachimónia, a dizer-lhe para se deixar de coisas, a voltar para casa, a parar, a regressar à condição de ser autocentrado, sem disponibilidade para outros umbigos, outras respirações. “Não te metas nisso, pá! Vais ajudar os pobrezinhos para quê? O Governo que trate do assunto. Só te vais meter em problemas. Eles ainda se vão virar contra ti. Tu não tens nem condições para te ajudar a ti próprio quanto mais para ajudar os outros”. E um tipo paralisa. Recua. Fica com dúvidas.
Sabemos que ser solitário é uma condição que nos cabe a todos pelo menos no essencial da vida. Crescemos, vivemos e morremos sozinhos, numa solidão que pode ser mais ou menos acompanhada e partilhada. Mas esse dado da existência não nos impede, como o outro (no caso, o homem do conto), de sermos solitariamente solidários, que é, em muitos casos, o máximo que podermos ser. Não se pense que esse gesto conta pouco. Conta muito. Acrescenta. Faz cada vez mais a diferença. Volto à imagem: comece-se por arregaçar as mangas em cada bairro, em cada prédio, em cada apartamento, em cada quarto, em cada coração. O resto logo se vê.
(crónica publicada no jornal que acompanhou a edição de 2012 do Lisboa Capital República Popular)
Existe uma cultura generalizada de que não se deve pagar a cultura. E não, não falo apenas do Estado, do vilipendiado Estado nestes dias em que o premiado cinema português espera o apoio que está, muito troikianamente, a perder (e bem merece tê-lo, caramba! - dentro de um quadro mais justo, claro, e com composições de júri e opções mais equilibradas nos Olimpos cinéfilos). Falo também das pessoas - isso: os cidadãos - que querem demasiadas vezes ir ver espectáculos sem terem de pagar os míseros euros dos bilhetes. "Não se arranja um bilhete à borla?". Não. Não se arranja. Ou não se devia arranjar. Porque o bilhete muitas vezes até só custa três euros (há cada vez mais espectáculos a custarem isso) e, em vez de gastar os trocos no croissant com queijo e a meia de leite da manhã, é bom pagar aquilo que se vai ver, seja um espectáculo de teatro, um filme ou um festival de bandas alternativas. Porquê? Porque é justo pagá-lo. E por uma questão prática. Porque, se se assim não acontecer, deixa de existir palhaços. Ou performers. Ou actores. Ou realizadores. Ou técnicos de som e pós-produtores. Simples. Acabo de fazer um filme com meios mínimos e sei o que custa: temos sempre de andar a puxar a carroça e a entusiasmar os participantes - entre técnicos e criativos - de que vai valer a pena o esforço. Com frequência entre a meia-noite e as quatro e meia da manhã, que é quando eles, generosamente, arranjam um tempinho, fora dos horários de trabalho, para contribuirem para a causa. Basicamente não funciona. Ou funciona muito mal.
Muita da cultura custa dinheiro a fazer. E por isso deve ser paga. É esse o ponto, ou o meu ponto. E - admitamo-lo sem merdas - "a cultura" é um gesto essencial à nossa sobrevivência. Conheço pouca gente capaz de sobreviver sem arte, sem ouvir e ler histórias, sem se emocionar com a recriação das suas vidas - das luzes e sombras disto de andar vivo - que as várias modalidades artísticas (desculpem a pompa) permitem.
Fui ver o "Tabu" e encontrei a salas cheia e com uma reacção atenta e entusiasmada. E, meus queridos (falo para todos, até para mim próprio), os "tabus" pagam-se. Custam dinheiro. É preciso pagar ao pessoal para os fazer - desde aquele que teve a ideia inicial ao que fez os apuros finais, mesmo antes da entrega da primeira cópia para exibição. Não aparecem feitos. Se queremos continuar a vê-los é importante que se promova ideia - seja através do Estado, seja através dos privados, seja através dos espectadores - de que é decisivo pagá-los. Sem isso podemos morrer à míngua. De cultura. Que é uma forma particularmente indigna de morrer.
Há dias, num café: um rapaz, duas raparigas, o jornal desportivo na mão do rapaz, elas queixando-se de que aquilo não tinha nada para ler, ele a chegar à página onde se falava da eliminação do Barcelona da Champions e o consenso por fim encontrado: eram todos do Barcelona. Ele, que era do Benfica, mas que explicou que: “o Barcelona é a minha segunda equipa”; uma delas, que era do Sporting, mas que disse que “também a minha”; a outra, que nem gostava de futebol, mas que achou por bem completar o momento de harmonia com um lapidar “ahã”.
Foi ali, com aquelas três alminhas, mas poderiam ter sido outras, noutra parte qualquer. Nos últimos anos, o Barça teve muita saída. Como os iPhones ou a nespresso. Deve ter acabado quarta-feira.
A relação de uma pessoa com um clube desportivo não é um estado de alma. Eu não estou do Alverca hoje e amanhã do Bombarralense. Também não é uma coisa que se tenha porque, se fosse, poderia perder-se. O uso da Língua é muito claro neste ponto: nós dizemos que “somos” dum clube. Eu sou do Bombarralense. Eu sou do Comércio e Indústria. Eu sou do Benfica. Ser. Identidade. Ser de. Pertença. Não se é uma coisa e outra diferente ao mesmo tempo. Chama-se Princípio da Não Contradição, mas não é preciso ter estudado Lógica para o saber; qualquer criança o intui. Ela é o Pedro; razão pela qual não é o Jacinto nem o Manel.
Ser dum clube, como sabem todos aqueles que verdadeiramente gostam de bola, não é uma decisão que se tenha tomado. Nada na essência de cada um de nós o foi. Ninguém decidiu que seria rabugento, sonhador, medroso, contemplativo, chato, interessante, et cetera. Um tipo é o que é; parte património genético, parte milagre, parte acaso. É alto, teimoso e sportinguista. Não decide tornar-se alto, teimoso e sportinguista.
Pode gostar-se do Barcelona, da forma como joga, da História do clube, do espírito, dos jogadores que tem. Mas ser dum clube estrangeiro como se é daquele de quem se é desde pequenino? Ao mesmo tempo? Em time sharing? Ser do rico, famoso, que se vê na televisão, como se é da malta do bairro?
A bissexualidade futebolística, leitor, é uma coisa que não me entra.
Chamem-me antiquado. Em pequenino, jurei ao Diamantino que era para toda a vida.
Acredito que há um pouco do que fomos naquilo que vamos sendo. O tempo, as ideias, as alegrias e as tristezas – tudo o que de forma não suficiente chamamos de ‘vida’ – vão ajudando na viagem, nas partidas, nos regressos e na surpresa das esquinas que vamos encontrando. Mas nunca, nunca seremos o que fomos.
Explico. Uma das minhas maneiras preferidas de me confrontar com o prefácio de mim é reler livros que de gostei muito na primeira vez que os li. O resultado deste exercício é sempre extraordinário: livro e leitor parecem e são diferentes sempre que lidos à luz do hoje. Há algum tempo fiz a releitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. A dada altura uma personagem de que agora não me recordo (a própria Alice?) resume tudo o que aqui foi escrito: «Mas não vale a pena voltar a ontem. Nessa altura eu era outra pessoa».
O tema que sobrevoa esta edição do Lisboa Capital República Popular, «Ser solidário» fez-me voltar a ontem – e por consequência, a outra pessoa que fui. Não me consinto – porque acho inútil e aborrecido – qualquer tipo de nostalgia que não seja a do instante que agora mesmo passou. Mas foi inevitável, perante esta frase, lembrar tempos, lugares e músicas. Um disco que me marcou e confirmou o génio absoluto de Zé Mário Branco, que transcende ideologias ou visões da vida (e escreve-vos quem tem esses valores praticamente nos antípodas dos do cantor); uns versos que ainda hoje me guiam («Fazer de cada perda uma raiz/e improvavelmente ser feliz»);
E houve aquela tarde de calor indolente, em que um amigo chamado Pedro Branco entra pela sala da Associação de Estudantes a que eu pertencia e lança o apelo: «O meu pai precisa de vozes para um coro de uma canção. Agora! Quem vem?». Fomos todos. O “pai” era – adivinharam – o próprio Zé Mário Branco. O resultado está registado e é com muito orgulho que me encontro na vozearia mais ou menos organizada que participa na canção Qual é a tua, ó meu?, incluída no mesmo disco.
Muitas versões de mim depois surpreendo-me a escrever sobre esses ontens que cantavam, de um optimismo quase absurdo mas sincero. E lamento, lamento tanto que a vida me tenha ensinado que o bicho humano gosta de praticar pouco o que louva. Não se trata de não acreditar na solidariedade; trata-se de acreditar (ou de constatar) que ela tem aparecido apenas na pior das situações ou instigada por campanhas massivas. Ela existe, eu sei. Há provas de pessoas e instituições que a praticam, sem medo nem vaidades. Mas por outro lado lembro que os mesmos que aderimos tão entusiasticamente na ajuda às vítimas do terramoto haitiano são exactamente os mesmos que os deixam agora no esquecimento. A media e a nossa consciência flexível faz o resto.
Parafraseando Dickens vivemos os piores dos tempos, vivemos os melhores dos tempos. A humanidade que teima em existir no ser humano vem ao de cima com as adversidades e todos os dias vemos exemplos notáveis de ajuda. Não me importo de dizer que eu próprio beneficiei com isso. Mas não consigo deixar de pensar na irritante sazonalidade dos bons sentimentos colectivos. Não é de resto de estranhar: o filósofo Emmanuel Lévinas (de certa forma um precursor e influência no pós-modernismo anunciado por Gilles Lipovetsky) esforçou-se para desenvolver a ideia da primazia do Outro, rejeitando assim todos os conceitos antropológicos que desde Descartes giravam à volta do ego. Dizia mesmo que a civilização ocidental encontra-se marcada pela redução do Outro ao Mesmo e que seria urgente um «humanismo do Outro», onde a violência de um rosto alheio nos convocaria ainda com mais força a sermos Nós. Infelizmente a nossa sociedade empurra para um isolamento, o que equivale a uma espécie de permanente angústia relacional, o que no limite nega uma das principais características do que é ser humano: a comunicação. É espantoso verificar como esta ideia se transformou na regra da humanidade ocidental , com as excepções a virem apenas em situação de crise. A solidariedade como virtude praticada em uníssono é impossível pela própria natureza humana. Cepticismo antropológico? Sem dúvida, mas um cepticismo que pela minha parte aceita mais o ‘talvez’ do que o ‘não’.
Apesar de tudo estes não podem ser os dias do pessimismo. São dias de acção, sob pena de tudo se perder. Iniciativas como a LCRP ajudam a pensar em valores universais e colocá-los em prática. E espero – meu Deus, como eu espero – que quem sou hoje e isto vos escreve esteja completamente enganado naquilo que aqui diz acreditar e que o outro que fui ontem possa regressar em força e confiante.
(texto publicado no jornal que acompanhou a edição deste ano do Lisboa Capital República Popular)
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Dizia há dias um estudo que há cada vez menos católicos. Não duvido. Duvido é que haja cada vez mais ateus. A malta gosta de se armar em durona. Qual adolescente em furiosa afirmação pessoal, gaba-se da sua ciência, do seu banho de mundo, da sua lucidez, da sua tecnologia, enquanto troça dos tontinhos que ainda vão à missa e ouvem a Renascença. Porém, debaixo da ilusão do cepticismo, da maturidade, da razão, nunca foi tão absurdamente crédula como agora (sublinhe-se a diferença entre crédula e crente).
O vulgo moderno revoltou-se contra a religião dos papás e abraçou o tutti-frutti da espiritualidade. Ele, basicamente, acredita em tudo. Tudo menos – Deus nos livre – o que seja católico.
Ele acha o Budismo uma escola de vida, o yoga uma prática extraordinária, os deuses hindus um mistério fascinante. Apercebeu-se de que há um karma na sua vida. Tem agora a casa cheia de velas com aroma a cedro para se libertar dele. Quando tem tempo, faz meditação (sim, porque, para ele, “rezar” é a coisa mais careta do mundo, mas “meditar” já é toda uma outra conversa). Anda a tentar equilibrar os shakras. Frequenta gurus, terapeutas e massagistas-que-sentem-coisas. Já foi a uma consulta de numerologia e a muitas de astros. Lançaram-lhe as cartas, leram-lhe a sina, fizeram-lhe o eneagrama; para a semana, tem marcada uma constelação familiar.
Desde que foi à Índia, despertou nele uma espiritualidade inquietante. Anda a tentar descobrir o que foi na outra vida. Tem muito respeito pelos islâmicos. Acha que não devíamos ir lá meter-nos com os princípios deles, que não se deve brincar com o facto de serem poligâmicos e esconderem as mulheres e lapidarem as adúlteras. A Igreja Católica é que é uma vergonha, que não autoriza o preservativo.
Tem em casa uns budas e pedras para diferentes ocasiões (uma que afasta o mau olhado, outra que atrai boas energias, outra que o faz estar bem consigo mesmo). Reorganizou todo o apartamento de acordo com o que lhe explicou uma amiga acerca do feng-shui. Vai lendo uns livros tipo “O Segredo” e tenta segui-los à risca. Alimenta-se de acordo com um plano rigorosamente adequado às necessidades energéticas do seu corpo. Espalhou incenso pelo andar. Tatuou um Vishnu na omoplata direita e um Shiva na esquerda.
Reserva bilhetes na primeira fila para ouvir o Dalai Lama na Gulbenkian, mas acha uma vergonha que se feche o Terreiro do Paço para o Papa. Não compreende que faz aquela gente toda em Fátima enquanto compra um bilhete para o Tibete.
No Brasil, disseram-lhe que tem um anjo e, desde então, que lhe parece senti-lo. Bebe um chá às terças-feiras que dizem que purifica e tem momentos em que, quase, quase consegue ver a aura das pessoas.
Acredita no PT e no psiquiatra, no poder curativo do pensamento positivo e a verdade é que, da última vez que lhe lançaram os búzios, acertaram em quase tudo.
Tem pena da mãe, que ainda acha que vai para o céu. E do pai, que tem medo de ir para o inferno. Estava capaz de acender uma vela de cedro por eles ou de meditar um pouco em volta da ingenuidade dos velhos. Mas são um caso perdido. Comem tanta carne vermelha.
1
Johnny nunca vira um elefante na savana embora tivesse sido concebido em África, num território onde os paquidermes eram comuns.
Johnny olhou para o animal, que não tombou com o primeiro tiro. Johnny só começou a correr após o segundo disparado, como todos os jornais viriam a relatar mais tarde.
2
Há vinte e três anos, a mãe transportara Johnny, ainda alimentado pela placenta, entre o continente da fome negra e a promessa do continente branco, numa patera, com mar calmo e desembarque nas praias mediterrânicas durante a noite. Foi apanhada pela polícia, mas como estava grávida não podia ser deportada.
Johnny cresceu na Europa vigorosa da indústria automóvel, do advento das telecomunicações, das obras públicas que davam trabalho aos que chegavam de fora, como a mãe de Johnny, que viveu em três cidades europeias, até se casar com um primo, e montar um mercado com produtos do seu país.
Johny era bom aluno, cidadão com passaporte, um exemplo da integração e do modelo de desenvolvimento. Terminada a faculdade, foi escolhido no processo de seleção para ajudante pessoal do monarca do país. Já não vestia sua alteza da cabeça aos pés, como aconteceria séculos antes, e teve uma notoriedade incomum para o posto que ocupava. Os jornais fizeram perfis sobre o rapaz africano, que atravessara Gibraltar na barriga da mãe – uma família que cruzou a Europa até que, apoiada e motivada pelo sistema e pela bondade das gentes, conseguiu que o filho frequentasse os mesmos salões com chefes-de-estado, estrelas rock, celebridades cinematográficas, atletas de primeira linha.
3
O segundo tiro não acertou no animal. O elefante seguiu caminho, foi perdendo velocidade, cambaleava como os bêbedos, tombou junto de uma árvore que Johny não sabia o nome mas, estava seguro, vivia ali há mais tempo que toda a comitiva do safari em que participava o monarca.
Johny tinha uma namorada. Pensava casar e, mais tarde, depois do estágio com o rei, abrir um negócio, como fez sua mãe. Johny correu, por fim, mas não para o monarca, que jazia no pó, sangrando da cara porque a arma, com defeito, rebentara no momento do segundo disparo.
Johny correu para o elefante e, mais tarde, os jornais e as televisões repetiram o relato desse detalhe como a mesma insistência com que um adolescente relembra a sua primeira experiência sexual nos dias subsequentes ao extraordinário evento.
Contrataram-no para fazer anúncios de produtos orgânicos, de carros amigos do ambiente e de bancos e companhias de energia que se esforçam por dar miminhos aos clientes em função de um mundo melhor e sem poluição.
4
Johny ficou famoso.
O rei desfigurado.
E um cronista social, malvado e megalómano, tornou famoso o cognome do rei, aquele pelo qual ficará conhecido nos manuais de história: “Trombinhas”.
Houve manifestações nas redes sociais e em certas ruas por causa do incidente com o elefante. Escreveram-se crónicas a favor da caça e outras em desprimor da raça. Homem que é homem mata o que come, diziam uns. Vais pedir um double cheese de elefante?, diziam outros.
Johnny foi despedido, meses depois, quando ninguém já se lembrava dele ou do animal assassinado. O rei chamou-o e disse:
“O senhor preferiu ir em resgate do animal do que salvar o seu monarca.”
Trombinhas tinha saído, recentemente, de uma plástica de sucesso que, no entanto, não o impedia de parecer o Homem Elefante.
Johnny disse:
“O animal, como se percebe pela ação da justiça do Acaso na sua tromba, é vossa alteza. Diria mesmo uma real cavalgadura (sem insultar os equídeos) e uma majestosa bosta de vaca (igualmente sem desprimor para o trânsito intestinal dos bovinos)”.
5
Johnny abriu um mercado, teve um filho e jamais se mudou para África ou voltou a ver um elefante na savana. Quando o rei morreu, engasgado na azeitona de um dry Martini, a bordo de um iate onde pescava tubarões, Johnny fugiu do luto oficial e das cerimónias nas ruas. Levou o filho ao zoológico. Não era a savana nem havia árvores ancestrais, mas Johny habituara-se, há muito, que a procura da excelência pode ser frustrante. O zoo servia.
Desrespeitando os cartazes que pediam para não alimentar os animais, Johnny deu amendoins ao filho e disse que os atirasse na direção dos elefantes.
Johnny inquietou-se, pensando se, no futuro, o seu filho seria caçador, se abandonaria um cão, se compraria bilhetes para a tourada.
Depois, um pensamento deu-lhe algum descanso:
“Quanto à forma como o meu filho irá tratar os animais, está tudo em aberto. Mas ao menos sei que não tem a sina amaldiçoada de um dia ser rei.”
Todas as adolescências são musicais. Arrisquemos mais: as músicas que ouvimos na adolescência são as mais importantes das nossas vidas. Apareceram numa fase de definições identitárias várias e trazem consigo todos os “instantes decisivos”, de vivências fundamentais, em que foram ouvidas. Ao longo da vida adulta não são raros os momentos em que são recordadas e lembrados os sentimentos que as acompanhavam. Os sons trazem imagens – que se vão substituindo umas às outras – e assim, de forma espontânea, se vai editando a longa-metragem de um crescimento. Há quem prefira deixar a adolescência nesse país distante onde está, para não ter de remexer ora no tesouro que foi ora na caixinha de problemas que constituiu. O escriba que assina estas linhas (o que é apenas uma forma de evitar o totalitário “eu”) preferiu ir, quase 20 anos depois de o ter deixado, buscar esse “tempo sagrado” e tentar perceber que mudanças ocorreram no território que pisou nessa altura de todas as descobertas.
É aqui que entram as ilhas dos Açores. Ou, se quisermos ser mais rigorosos, uma ilha dos Açores, São Miguel. Foi esse o solo terrestre com vista para o mar que suportou o seu crescimento. Foi ai, nessa paisagem sem adjectivações possíveis, nesse ambiente ilhéu único, que cultivou imensas dúvidas e algumas certezas, no ambiente psicológico de investigação próprio da idade. Foi aí que partilhou com os amigos as experiências de criatividade e libertação que são transportadas, noutras circunstâncias, de forma naturalmente mais condicionada e normativa, pela vida fora. Como é que está a terra que deixei quando tinha 18 anos? Na altura de fazer as malas uma primeira pergunta foi logo colocada na bagagem. Interessava-me (sim, o melhor é assumir o controlo do avião) ir buscar a adolescência e aproveitar para perceber em que é que se transformou a ilha. Seguiam-se outras, decorrentes das primeiras: os locais onde cresci estão intactos – têm a mesma morfologia, o mesmo cheiro, a mesma poesia? As pessoas que lá estavam continuam no mesmo sítio? Estarei preparado para me confrontar com as rugas dos lugares e dos rostos? Pisamos aqui o terreno das emoções que todos os regressos suscitam: uma mistura entre curiosidade e apego. E a consciência de que muitas vezes é necessário vigiar a nostalgia, esse mar de conforto onde dá sempre jeito ao espírito banhar-se. Chegámos – nós, equipa de filmagem – à ilha de São Miguel nos finais de Setembro com a ideia de fazer um documentário ficcionado a partir de algumas ideias que tínhamos lançado em conversas várias.
Depois de um brainstorm numa casa junto à Lagoa das Furnas (oh privilégio!), alinhámos uma série de situações que queríamos gravar e fizemos um primeiro desenho da calendarização. Mas as pessoas com as quais nos fomos cruzando nas três semanas de rodagem tornaram esses planos iniciais apenas o ponto de partida para todo o tipo de surpresas. Cheguei, sim, à pista na qual queria aterrar: as pessoas, continuam a ser as pessoas a dar a volta ao mais programado dos textos. Hoje não sabemos se temos um documentário com momentos de ficção ou uma ficção com momentos documentais. Os abraços um a um ficarão para altura oportuna. Mas fica aqui já um agradecimento do tamanho do céu que estão a sobrevoar para quem – ora nos momentos de representação ora na interpretação de músicas ora em depoimento – também fez o exercício de ir procurar os seus discos perdidos. Agora quem diz discos perdidos também diz milagres encontrados. Até já, numa sala de cinema perto de si. A primeira exibição do filme "Noite de Festa" é amanhã, às 15h30, no Teatro Micaelense, integrada no Panazorean.
O trailer é este:
(Publicado na revista da Sata)
Depois de me emocionar com a prosa do arquitecto, no Sol, sobre"Os Homossexuais Contestatários", inspirei-me no seu texto para retratar outra maleita dos tempos modernos.
À minha frente, no elevador, está uma mulher de 34 ou 35 anos. Pelo decote, emissão de feromonas e pela forma como balança o pé dentro do sapato de salto, percebo que é heterossexual.
Estamos no elevador do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, e sim, vou começar com detalhes descritivos como: trabalho naquela zona, subo e desço a rua muitas vezes, gosto muito de subir a rua, e de descer também; bebo um copo de água a meio da manhã; a Gávea é um lugar com muitas mulheres bonitas; não sei porque as mulheres bonitas escolhem certas zonas da cidade, mas, de facto, ali nos cruzamos com muitas mulheres bonitas – quase tantas como gays no Chiado.
(Se eu escrever assim e explicar tudo muito bem explicadinho, contando a minha vida desde que lavo os dentes de manhã até que ato os cordões das meias de dormir à noitinha, fica tudo mais claro e a minha singular voz literária permanecerá para sempre na cabeça dos leitores tal como a minha prosa nobelizável perpetuará sua luz nas bibliotecas do mundo inteiro.)
Julgo ser notório que a comunidade heterossexual feminina tem vindo a crescer não só no Rio de Janeiro, mas em múltiplas metrópoles – e a maioria queixa-se do elevado número de homens hetero imprestáveis para um namoro de verão, quanto mais para casar e ter filhos. Elas estão aí e são insolentes.
Como todos sabemos, caiu o muro de Berlim, o Fidel patina, eu li muitos livros que explicam isto, a juventude é rebelde e agora já fiz um enquadramento histórico para concluir brilhantemente que: ser hoje uma mulher heterossexual de 30 e tal anos, solteira ou sem parceiro, é moda ou uma forma de contestação.
Uma amiga minha pensou fazer uma tatuagem, participar numa manifestação a favor da legalização da maconha ou fundar uma banda de punk rock, mas depois, influenciada por amigos e pelas celebridades que assumem a sua heterossexualidade em público, resolveu ser uma trintona nos píncaros da prestação sexual, sem parceiro permanente e orgulhosa da sua condição (ela ainda não decidiu se é uma doença, se é assim porque é assim, ou se é apenas vulnerável às tendências da estação).
Durante anos, as mulheres heterossexuais de trinta e tal anos tiveram de viver num sistema que não permitia que se assumissem, muitas casavam e tinham filhos para escamotear a sua condição. Conheci umas quantas que, muitos anos mais tarde, largaram tudo e saíram do armário. Sem as lutas ideológicas da Guerra Fria, sem o confronto geracional de antanho, a insolência maior é agora ser uma mulher heterossexual de trinta e tal anos.
Quando olho para a mulher no elevador, para a forma como ostenta a sua heterossexualidade, o peito apertado, as pernas lisas e altas, não posso deixar de pensar que a sua opção é uma forma de negação radical, porque rejeita a relação homem-mulher como ela deve ser. O macho passa a ser o caçado. E a verdade é que, naquele elevador, me senti como a zebra coxa cruzando o território da leoa.
Esta mudança de paradigma, em que o homem é usado para satisfação da mulher sem fins de procriação, é um caso bicudo de niilismo, uma ausência de continuidade da espécie, como o insecto fêmea que come a cabeça do macho no final da cópula.
Sempre que uma mulher heterossexual de trinta anos tem relações com um homem sem envolvimento emocional e gravidez subsequente, morre um marinheiro no mar. E se uma dessas mulheres tem relações com outra mulher, então nesse caso morrem três fadas, dois atuns e um unicórnio.
Além de nociva, a exposição da heterossexualidade destas mulheres é, para concluir, uma moda, uma birra, um acessório no kit da noite, uma forma de chamar à atenção.
Moral da história?
Talvez o que dizia aquele grande gayzão, Oscar Wilde:
“The only thing worst than being talked about, is not being talked about”
Tradução muito livre: ser polémico é melhor que ser apenas nulo.
Moral da história 2: You go girls.