Primeiro queria falar do novo - é sempre novo, sempre novo - disco de Leonard Cohen. O deslumbre é tão forte que me esgota a adjectivação. Talvez fale do disco - melhor, estou certo que o farei - quando terminar de o ouvir e de o ler. Agora só o posso antecipar. Mas uma coisa leva à outra,as palavras existem à espera de serem usadas e reusadas. E encontrei estas, nascidas há pouco para habitarem outro lugar, vi que estava a falar de Cohen sem falar dele. E por isso essas palavras voltam a nascer aqui. Preguiça? Cohen justifica até a preguiça.
O silêncio das palavras
Já o escrevi e disse centenas de vezes. Não porque quero matar de tédio os meus escassos interlocutores mas apenas porque considero uma das poucas verdades em que acredito, impermeável à passagem dos dias. E a verdade é esta: tudo tende para o silêncio, porque é ele que tudo contém. A vida, a arte: tudo almeja o indizível. As palavras são uma triste mediação porque nunca conseguirão dizer o que realmente se sente. Para quem faz da escrita a sua vida elas são a mais bonita das impossibilidades.
Neste sentido, a poesia – a palavra poética – será o que mais próximo ficará desse lugar tão secreto que queremos partilhar. A poesia é uma investigação da verdade e da alma, uma depuração constante e exigente que no seu melhor nos alimenta sempre com o que não se escreveu e ficou por dizer. E aí é que nós estamos, e aí é onde está o poeta.
Nem o que escrevo é original: desde sempre houve quem sentisse e comprovasse este paradoxo de não se poder dizer o que se sente: de Wittgenstein a Beckett, passando por Fernando Pessoa ( «O poeta é um fingidor»...) a constatação do silêncio como derradeiro lugar da alma parece evidente.
Faz então sentido dizer poesia? Faz. Mesmo preferindo a leitura para mim mesmo, sei que a palavra é a última feitiçaria que nos resta, o vestígio de magia a que ainda temos direito. Capaz de levantar corações, incitar revoltas, gerar ficções, criar manifestos, suicídios, paixões inexplicáveis.
Por isso sempre me encontrarão perto dessas cerimónias em que a palavra anda à solta, sem medo e sem dono. A poesia é uma utopia solitária e a única que me interessa neste mundo. Agarro-me a ela tantas vezes que se confunde com a vida. E sempre com a esperança que a magia funcione, mesmo sabendo que não há resposta à pergunta em verso de João Miguel Fernandes Jorge: «como hei-de prometer as coisas».
(publicado no magazine do SlamLX nº3, dedicado à Slam Poetry)
É um tema meio secreto, pouco falado, mas há anos que me inquieta. Talvez tudo tenha começado com aquela bebedeira no primeiro jantar de turma da faculdade – bifinhos com cogumelos e vinho branco –, quando um colega resolveu, por sobrelotação da casa de banho, desgoverno alcoólico e aflição da bexiga, correr o fecho das calças e pôr-se a mijar para dentro do lavatório. Má sorte: foi apanhado pelo dono, arrastado para a vergonha pública da sala de refeições e atirado porta fora, enquanto tentava metê-lo para dentro das calças e sofria as dores de ter interrompido uma mijadinha a meio – os senhores que mijam de pé sabem do que falo.
Ou talvez tenha começado antes, quando li “A insustentável leveza do ser”, livro que a minha namorada começou a reler há uns dias. A dada altura perguntou-me: “Já leste?”
Eu respondi que sim e disse-lhe que uma das memórias que tinha desse livro era a conversa de um médico sobre os seus colegas de profissão que, como ele, preferiam mijar em lavatórios.
Mas nada disto se juntou dentro da minha cabeça até que, por acidente, encontrei na internet uma citação de Charles Bukowsky:
“Sometimes you just have to pee in the sink.”
Talvez exagere, talvez seja defeito de escritor que procura (inventa e força) verdade e beleza e sentido em tudo o que encontra pelo caminho, talvez nada disto tenha a importância que lhe atribuo. Mas quando li a frase do Bukowsky percebi, mais uma vez, a importância da literatura. Numa simples sequência encadeada de palavras, ele oferecia-me o final para a minha história de mijadores em lavatórios, dava-me uma epifania cheia de verdade, as palavras no osso, e até um certo humor que, arriscando-se a roçar o mau gosto, ascende muito acima da piada de casa de banho.
Mas de nada me interessam explicações. Antes pelo contrário. Sometimes you just have to pee in the sink. Está dito e redito. Para quê explicar, esmiuçar, ir procurar razões pelas quais os homens (quantos?) resolvem mijar em lavatórios ou se o fazem com mais frequência quando estão bebedos? Isso é trabalho para os jornais e para os cientistas da sociedade. O que importa é o estrondo, a clarividência e a identificação provocada pela simples frase:
"Sometimes you just have to pee in the sink."
Não faz todo o sentido?
Peço desculpa demasiadas vezes. Não tenho qualquer pulsão incontrolável desculpativa, longe disso. Devo, pelo contrário, muitas desculpas a muita gente. Algumas não as dei no devido tempo e foram azedando até que já não fazia sentido dá-las, outras o orgulho não deixou sair, outras só muito mais tarde é que percebi que as devia ter dado.
O meu problema não é pedir muitas vezes desculpa, são os disparates que faço ou digo e que não consigo reparar doutra forma.
Tenho, sem qualquer ponta de ironia, inveja de quem nunca pede desculpa. É gente que nunca falha ou se pensa que falhou acha que a falta é largamente compensada pela quantidade de bondade que espalhou. Bem aventurados os justos.
É só, obrigado.
Aqui no bairro a especialidade - sabemos disso - é protelar. E todas as alturas de ano ajudam a essa causa de deixar para daqui a sete meses o que podia ser feito hoje. Pensei nisso agora que passámos as épocas do Natal e da passagem de ano. Queria combinar alguma coisa com alguém e népias. Nada feito. Porquê? Por causa desta mensagem automática: "Sabes que isto nesta altura do ano é uma confusão, é uma série de jantares". Sei, sei que é assim. Mas também sei, não sem alguma rezinga, que entre os repastos familiares há intervalinhos - e não são tão exíguos quanto isso -em que o cidadão pode dar-se ao luxo de oferecer dois minutos de atenção a quem o procura. Digo eu.
Mas o problema é que, como sabe o sinusítico leitor, o período a seguir também serve para o campeonato das desculpas. Lanço, já em Janeiro: "Então, quando é que nos encontramos?". A resposta sai, quase tão automática quanto a anterior: "Sabes que isto do início do ano é um bocado complicado". Porquê, pergunta-se. "Há uma grande ressaca das festas de Natal e de ano novo". Pois. À sugestão: "Pode ficar para o próximo mês?" respondo com um "ok" medianamente esperançoso. Chega-se a Fevereiro e brotam novíssimas desculpas. "Mas eu não sabia que gostavas do Carnaval?", arrisco. A resposta: "Não, não gosto. Mas aproveito e vou com a Eliana dar um giro à terra dos pais dela". E, pimba, lá se vai, perdida entre confetes e melancólicas buzinas, mais uma oportunidade.
Depois, pronto, depois é a Páscoa. "Sabes que isto". Sei, também tenho família. E depois chega, qual onda pré-veraneante, o generoso período "antes das férias", em que o importante é "despachar uma série de coisinhas que ficaram pendentes durante o resto do ano". E o Verão, meus queridos, é para ir a banhos, não para os compromissos da amizade. Na mui chique rentrée, há a desculpa da rentrée. Onde há sempre muita tarefa para executar, muita época nova para preparar, muito entusiasmo para consumir. E a reentrée, aqui no bairro, vai de Setembro a Dezembro, que é como quem diz chega ao Natal dos Hospitais com uma pinta que só visto.
E prontos. Até à próxima. Vida.
Assumo tudo. Confesso. É tudo verdade. Tenho andado a mentir em relação à minha própria definição. Sou esteticamente conservador, intuitivamente libertário e tradicionalmente cobarde. Não um conservador tout court. E é a cobardia que melhor reflecte cada um dos meus gestos. Mas, estou certo que o leitor não está aqui para assistir a lamúrias e auto-retratos de um c. qualquer. Não é da minha cobardia que pretendo falar mas, antes, da coragem dos outros.
Por motivos que só Deus pode conhecer, tive de me reunir com um homem, por estes dias, a fim de acordarmos num negócio que traria benefícios à minha parte e que pouco, ou nada, lhe interessaria. Isto estaria, à partida, condenado ao fracasso. Porém, em apenas cinco minutos, o homem apresentou-me todos os benefícios sem que eu lhe pedisse nada. Pensei: sou um génio! E ali estava eu, deslumbrado, a contemplar a minha magnitude negocial. O homem despachou o assunto num abrir e fechar de olhos. É muito comum encontrarmos, hoje, executivos mais pragmáticos e objectivos. Mas, com aquela rapidez toda, nunca tinha visto.
Não demorou muito até perceber a razão para tanta celeridade. Este homem aproveitou a oportunidade para conseguir uma vantagem (legítima, absolutamente legítima) a partir de uma certa circunstância, externa a este negócio. A sua pretensão foi apresentada com uma naturalidade tal, que julguei que estivéssemos, ainda, a negociar contrapartidas. A eficácia com que o meu interlocutor saiu de um negócio para o outro foi tão extraordinária que nem me me deu tempo de adoptar uma postura apropriada, entre a reflexão e a desconfiança. Tudo isto foi feito com uma segurança invejável. Alguém que consegue ser tão assertivo tem de ser, ao mesmo tempo, corajoso.
Admito que é a coragem que nos conduz ao sucesso. Porém, não encontro na atitude deste homem um pingo de coragem. Encontro - isso sim - um total descaramento. A coragem e o descaramento não se encontram no mesmo patamar, já que este nasce para ser inconsequente e a primeira nasce para a transcendência. O homem corajoso é aquele que enfrenta a adversidade por uma convicção. O homem descarado aproveita-se de um espaço mudo. A minha cobardia, afinal, não é assim tão grave. Talvez reste, ainda, dentro de mim, a coragem suficiente para viver com dignidade. Talvez a minha missão seja negar o descaramento.
Antes
Pedrinho foi ver um Benfica Porto lá no boteco do Joaquim, na Cupertino Durão, fodido da carteira e sem um rolé de cama há meses. Mudara-se do Porto para o Rio com perspectivas de emprego e um filme editado na cabeça: mulheres morenas, de pernas malhadas e marcas de biquíni; mulher loiras com lábios devotos ao sexo oral e tanta ternura depois, como malícia antes; mulheres mulatas, japonesas, negras como o café da manhã, mulheres que compensassem a sua adolescência casta e a idade adulta com pouca quilometragem – três namoradas, duas visitas a prostíbulos do Porto.
Pedrinho era do Boavista e estava-se a cagar para o jogo. Tinha combinado com JP, um belenenses com cartão de sócio, que também dispensava o clássico, mas que gostava de cervejas baratas e confusão ao fim da tarde. Sem prestarem atenção no ecrã ou sequer nos outros portugueses com cachecóis ao pescoço e “filhadaputa” na ponta da língua, JP e Pedrinho puseram-se a sorver cachaças e chopes, acabando, como sempre, dedicados ao tema que mais desassossego provocava a ambos: boceta.
“Eu sou movido a boceta, tenho de admitir. O meu motor de arranque são gajas. Sou assim desde pequeno, não consigo estar num bar só com homens, fico inquieto.” JP interrompeu o discurso e ficou a olhar para uma milf que regressava da praia comendo um picolé. “Estás a ver o que te digo. Basta sair à rua. Sabes o que disse Buñuel?”
“O toureiro?”, perguntou Pedrinho.
“O gajo do cinema, que fez aquele documentário sobre os pobrezinhos ali perto de Salamanca, e que matou uma cabra para tornar aquilo mais dramático.”
“Não faço ideia.”
“Caga nisso. O Buñuel tinha 70 anos e disse: ‘Com esta idade ainda não me livrei do tirano.’ Entendes? Isto é uma tirania.”
“Não entendo.”
“O sexo, a boceta, o pau duro, um gajo ir ao supermercado e entrar no corredor dos produtos de beleza só porque viu uma gaja boa passar.”
“Que romântico.”
“Por falar nisso. Quantas quecas é que já te valeu esse romantismo desde que aterraste no Rio?”
“Não sou como tu. Não gosto de pegação. Não é a minha cena.”
“Tu és um mestre Jedi. Como é que consegues suportar os meses de abstinência?”
“Nunca ouviste dizer que a espera intensifica o prazer.”
“Essa foi a coisa mais gay que te ouvi dizer nos últimos dois dias.”
“Estou aborrecido.”
“Jogo de merda.”
“E tu, tens triunfado?”
“Ontem foi lá a violinista a casa.”
“E então?”
“Foi fixe. Mas acho que não vou repetir.”
“Terceira vez?”
“Quarta.”
“Bate certo, é o teu padrão.”
Pedrinho foi ao banheiro, as solas das havaianas chapinharam na película de mijo e água e papel higiénico. Balançando diante do urinol, pôs-se a pensar que, quando saísse daquele boteco e entrasse na rua, tudo iria mudar. De peito inchado pela confiança da cachaça, almofadado pelo airbag alcoólico e sem medo da rejeição, Pedrinho decidiu que o que tem de ser tem muita força, acabavam-se ali as longas conversas e o cavalheirismo, ia partir directo para a sacanagem, pegação a toda a ordem, vamos varrer geral.
Depois pensou no conselho que JP lhe dera, semanas antes, durante uma festa: “Tens de saltar-lhes à boca. Não digas nada. Chegas lá e saltas-lhes à boca.”
Pedrinho voltou a terra firme e passou pelas mesas do boteco, olhou as mulheres susceptíveis de serem beijadas após três cachaças e seis chopes (60 por cento das presentes), imaginou-se a saltar à boca de uma delas.
Mas logo se acagaçou, pensando que agarrar uma mulher, sem “com licença” ou “por favor”, e meter-lhe a língua na boca, era missão para os rangers de Lamego ou os forcados de Santarém.
Pedrinho estava habituado a cafezinhos e mais cafezinhos antes de receber um beijo nos lábios. Lidava melhor com programas tradicionais: cineminha no dia que era mais barato, lanches em pastelarias, um pé de dança numa discoteca e férias na loucura de Vilamoura – localidade onde, depois de muita insistência de Pedrinho e outros tantos copos de sangria, a sua namorada se masturbou para ele, pela primeira vez, em sete anos de relação. Nunca se falou no assunto. Muito menos se repetiu a prática.
No boteco era diferente. Tudo era possível. Pedrinho sentou-se e informou JP da epifania resultante da sua visita ao banheiro.
“Eu sou como um jogador de futebol brasileiro na Europa, mas ao contrário.”
“Come again?”
“Não se diz que, por vezes, os jogadores brasileiros levam tempo a adaptar-se ao futebol europeu?”
“Ya.”
“O mesmo acontece comigo aqui, mas no campeonato do engate. Eu estou num processo de adaptação, mas chego lá.”
“É isso que eu gosto de ouvir. Hoje vais ser o Ronaldinho e eu o Ronaldo Fenómeno.”
“Não posso escolher outro?”
“Ok, podes ser o Mozer.”
No intervalo do jogo pagaram a conta e caminharam para lado nenhum. JP falava como numa palestra:
“Tem tudo a ver como a forma com encaras o determinismo biológico do teu género. Nós fomos feitos para espalhar a semente e um dia podemos até ficar obsoletos, mas enquanto aqui estivermos é melhor aceitar esta tirania do que reprimi-la. O sexo faz muito bem à saúde. Tens ideia da quantidade de doenças que a prática continuada de sexo previne?”
“Sífilis? Sida? Gonorreia?”. Pedrinho estava mais solto, esta seria a sua noite.
JP pegou no telemóvel, levantou uma mão para que Pedrinho se calasse, e abriu o livro da lábia chapa cinco:
“E aí, bonitinha, onde você anda? Está com amigas?”
Depois
Pedrinho apareceu no quarto de JP a meio da manhã, abriu as cortinas com intenção de causar danos nas córneas do amigo, e começou a desaparafusar o aparelho de ar condicionado. JP sentou-se na cama:
“O que estás a fazer aqui a estas horas?”
“Não sou eu, é o tirano.”
“Como é que entraste?”
“O tirano convenceu a tua companheira de casa que era um assunto urgente.”
Pedrinho já ia no quarto parafuso quando JP reparou na caixa de ferramentas.
“Que merda é esta?”
“O tirano veio cobrar. Uma das tuas amigas acabou lá em casa. A meio da noite pediu-me duzentos reais mais dinheiro para o táxi. Quando disse que não, que não tinha acordado nada com ela, apareceu-me um negão lá em casa.” Levaram-me o ar condicionado como garantia de pagamento.”
JP saltou da cama, abriu os braços em louvor ao universo.
“Tu não percebes? Tudo mudou. Olha para ti, cheio de auto-confiança. Entras aqui, nem se nota que estás de ressaca. Todo decidido. Tiras o ar condicionado da parede, falas alto, estás mais contundente. Não percebes o que está a acontencer? Isto é coisa de Mr. Miyagi, wax on, wax off. Tu estás finalmente preparado. Os teus níveis de masculinidade estão a bater ferros. As mulheres adoram isso.”
Pedrinho pousou o ar condicionado na cama. De facto sentia-se mais pujante desde que estivera com aquela mulher. O tirano precisava de ser alimentado.
JP enfiou-se nuns calções de banho. Não vestiu t-shirt: “Agora é uma questão de continuarmos com o programa de treinos. Vamos lá beber um suco à rua.”
Pedrinho olhou o amigo: “Achas mesmo que a minha sorte vai mudar?”
“E eu alguma vez te ia mentir sobre uma coisa destas?”
“Então vai andando que eu vou montar o aparelho outra vez.”
“Faz isso. Olha, tens aí vinte reais que me emprestes? Nice. És um bacano. E não te esqueças: wax on, wax off.”
Um estudo feito a pedido da Comissão Europeia no âmbito do “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações 2012” diz que os portugueses deixam de se sentir jovens aos 36,8 anos. Ou seja, um cidadão nascido a 1 de Janeiro de 1980 chega a Agosto de 2016, está muito bem a fumar uma ganza deitado numa praia à espera do nascer do sol, depois de ter saído do Kiss de Albufeira onde andou na mui nobre actividade da caça à bifa, quando de repente o raio da meia-idade o atinge.
Bom, não deve ser nada disso, mas nem me apetece discorrer sobre o bocejante tema do que é ser jovem, nem qualquer assunto sob a epígrafe “envelhecimento activo” me merece mais reflexão do que o esforço intelectual de pensar onde diabo pára o isqueiro para deitar fogo a qualquer página onde estejam as pomposas palavrinhas.
A história sobre o estudo vem no DN e deixou-me mal disposto. Um tipo olha para a página, lê que os portugueses perdem a juventude aos 37 anos e pensa: “a vida pode-nos não andar a correr bem mas somos uns optimistas apesar de tudo”. Afinal não. Perder a juventude aos 37 é fracote. Os nossos camaradas europeus perdem-na muito mais tarde, até os gregos só passam a ser tristes criaturas de meia-idade aos 50.
Como se isto não bastasse para um tipo ficar irritado, fui também esclarecido que perdemos o viço porque somos infelizes. Andamos lixados com os nossos amigos com as nossas famílias e andamos insatisfeitos com a vida. Somos os mais infelizes da Europa. Segundo os génios consultados é isto que explica perdermos a juventude tão cedo.
Se calhar por ter ficado deprimido não percebi bem a relação entre juventude e felicidade. Percebo bem a relação entre a felicidade e o amor, a amizade, o sol, até com o dinheiro, mas felicidade e juventude não atinjo.
Vou pensar nisto esta semana e depois digo. Sinto-me velho e muito infeliz, mas posso ficar feliz se alguém quiser, velho é que vou continuar. E, pensando melhor, até sou capaz de aprender grego.
Em Portugal, há sempre alguém que nos anda a lixar. Ou são os políticos, ou os banqueiros, ou os empresários, ou a polícia, ou o árbitro, ou os espanhóis, ou os alemães, ou os chineses, ou a agência de rating. Mas também o patrão. E o colega do lado. E o vizinho de baixo. E as finanças, e o médico, e o professor, e o tipo da oficina, e a mulher da lavandaria, e os gajos da EDP, e os da TMN, e o homem das obras, e o canalizador. E a maçonaria, e os ricos, e a função pública, e os grevistas, e as fundações, e os empreiteiros, e os juízes, e os farmacêuticos, e os jornalistas, e os gajos da igreja, e os comunistas, e os tipos da direita, e os taxistas. Ui, os taxistas. Para já não falar do azar, e do tempo, e da geografia.
Há uma conspiração cósmica para nos tramar. Especificamente a nós. Povo indefeso, honesto, trabalhador, bem formado, talentoso, incompreendido, injustiçado.
Que pena. Que pena que tenhamos tantas qualidades e nos falte a capacidade de colocar, por um momento, a absurda hipótese de estarmos na valeta por culpa própria. De sermos, quem sabe, um batalhão de derrotados, invejosos, preguiçosos, comichosos, queixosos, queixinhas, saudosistas não se sabe de que tempo, luminárias que – ó injustiça! – ninguém foi capaz de entender e dar o valor e a oportunidade. De termos, porventura, nascido geneticamente impreparados para a auto-crítica e para a auto-ironia e para o acto de contrição e para que o único orgulho de que sejamos capazes seja o orgulho da virgem ofendida. Por já só sabermos ser felizes neste papel, do insulto atirado da arquibancada, do miserabilismo, do pobrezinho, de quem comprou a paz da própria alma com o mito de que o universo esteve montado desde sempre para nunca nos deixar vencer.
Notícia de última hora: no derrotismo que matou Portugal, só um suspeito esteve lá, todo o tempo, no local do crime: o português.
O fenómeno é comum e não perdoa. Pode resumir-se assim: o cidadão está tranquilamente embarcado na sua vidinha e sem que nada o anuncie ou preveja – paf!, leva com o passado afectivo na cabeça. Este acontecimento pode revestir-se de várias formas: um rosto reconhecido, uma música antiga, um cheiro familiar, ou, para os mais proustianos, um bolo seco. O resultado pode variar desde um simples suspiro (“ah, belos tempos”), uma rejeição (“que besta que eu era!”) ou o puro e duro embasbacamento. Quando este último acontece – como foi no meu caso, que contarei a seguir – só um conselho: se embasbacar não conduza.
Passou-se isto durante o simpático trânsito de uma Lisboa que ainda acorda e que acorda geralmente de mau humor. Entre o tráfego ensonado, olhar ainda por nascer, a telefonia do carro faz o favor de anunciar: “E agora, uma memoria musical: Gabriela Schaaf, e Leva-me ao cinema.” Ora, meus amigos: aos 15 anos eu estava perdidamente apaixonado por Gabriela Schaaf: a voz, os olhos, as epaulettes correctíssimas e oh so eighties. Por ela fiz a primeira das muitas figuras de urso que iria fazer por causa de uma mulher (e de que nunca me arrependi): levantei-me de madrugada para estar na primeira fila do cinema Nimas, onde Júlio Isidro emitia em directo a sua Febre de Sábado de Manhã. Nesse dia, Gabriela iria cantar e eu tinha de lá estar. Estive; e num gesto em que ainda hoje me pergunto onde fui buscar as forças e a coragem, subi ao palco depois das canções e fui pedir um autografo. Deu-mo, com um sorriso e dois beijos. Regressei a casa a flutuar e com a sensação que o filosofo DiCaprio tão bem descreveu em Titanic: “I’m the king of the world!”
Não sou propriamente um tipo saudososista ou mesmo nostálgico. Acredito no hoje perpétuo e estou grato por viver agora mesmo, neste tempo. Mas que certas coisas afagam a alma, ah isso afagam. Por isso mesmo, consigo ver agora com maior condescendência o amor que as jovens teenagers (e em particular a minha filha) nutrem por um grupo de rapazolas com cara de imbecis que se chama One Direction. Cantam o que parecem – um pop desenxabido mas eficaz – e fazem sonhar as meninas (em particular a minha filha, que escreve neste momento uma fan fiction e cuja conversação se tornou monotemática). Ao principio indignei-me: um pai com tão bom gosto, um educador da classe melómana e ela faz-me isto? Mas a Gabriela devolveu-me à realidade: precisamos de passar por isso. Esta entrega desmedida e absurda prepara-nos para outras que mais tarde nos irão, com sorte, atravessar a vida.
Anos depois também ela fará a sua arqueologia afectiva e se enternecerá com a péssima música que estes rapazolas fazem. E eu ficarei contente. Por isso, rapazes do One Direction: não abram essa carta sem remetente – ela está armadilhada e fui eu que enviei. Mas isso foi antes: agora queria mesmo dizer-vos obrigado. E um beijo, Gabriela!
para a minha filha Leonor
Deem-me mais umas quantas palavrinhas e eu despeço-me já do ano passado. Já está na altura de começar a aproveitar os novos dias, eu sei. Mas não queria deixar que os precedentes se fossem embora sem recordar uma das suas figuras. Não sei se será a personalidade do ano, se calhar porque uma homenagem deste tipo merece ser partilhada por tantos.
Tariq Jahan. Era dele que queria falar. Tariq Jahan, 46 anos, filho de imigrantes indianos e paquistaneses já nascido no Reino Unido. É o pai de um de três homens que morreram durante os motins de agosto, atropelados enquanto protegiam as lojas do seu bairro de Birmingham. Ficou conhecido pelo seu discurso à comunidade muçulmana em que apelou à calma e rejeitou o recurso à violência, logo no dia subsequente à morte do seu filho. As suas palavras pediam união entre as várias comunidades e evitavam a vingança. “I lost my son. Blacks, asians, whites – we all live in the same community. Why do we have to kill one another? Why are we doing this?” No barril de pólvora que é a segunda maior cidade britânica, ainda a cicatrizar das lutas entre as comunidades asiática e afro-caribenha em 2005, acredita-se que os seus apelos tenham sido decisivos para impedir confrontos raciais.
As mesmas palavras repetidas por um político ou um responsável da polícia não teriam tido sido ouvidas. Naqueles dias de enorme tensão, o discurso tão simples quanto inspirado, sobretudo corajoso, de alguém sem qualquer experiência como orador conseguiu pacificar uma multidão.
Marcou-me este momento de grande dignidade. O facto de Tariq Jahan ter conseguido manter-se lúcido e encontrar tanta paz interior num momento tão doloroso, em que os nossos instintos básicos anseiam por vingança, procuram por responsáveis. A força que é necessária numa altura destas para procurar a via mais sensata.
Estranhamente, lembrei-me dele por razões menos positivas, ao ouvir na BBC que tinha sido acusado de agressão numa discussão rodoviária, meses antes dos motins. Sim, Tariq Jahan não é um santo. Terá muitas facetas para além do herói, é imperfeito e não se resume à pessoa que discursou inspiradamente para toda uma comunidade. Mas conseguiu ser uma voz positiva, numa altura em que as imagens apenas transmitiam violência, pilhagens e incêndios.
(neste texto já me esforcei por escrever ao abrigo do novo acordo ortográfico)