Em nome de todos os que tornaram este espaço visitável, fascinante e ranhoso, um agradecimento aos dedicados frequentadores do estabelecimento. Sim, vemo-nos noutras unidades de saúde. Com ou sem receita médica. Até já.
A fechar, o texto com que se iniciou esta maleita.
Hoje não escrevo
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...
Então hoje não tem crônica.
Carlos Drummond de Andrade
Quando este escriba que vos fala começou a escrever em blogues – algures em 2003, quando a vida era estranhamente possível sem twitter, magalhães, genéricos e rita pereira – via os comments como uma chatice incómoda que, em geral, nem permitia. Hoje, escreve para vos dizer que foi um prazer mudar de opinião. E ser comentado por vós aqui. E, muitas vezes, emocionar-se com a generosidade das palavras e do tempo de perfeitos estranhos. Estranhos invariavelmente interessados, elegantes e com sentido de humor.
Por isso, hoje, que me despeço do SINUSITE, apareço só para vos agradecer essa generosidade. Nas palavras de Marlon Brandão, saudando o público no final duma vitória do Boavista, algures nos princípios dos 90: valeu.
Um abraço a todos. See you around.
Consegue levar-se uma vida normal, mas, de vez em quando, há uma recaída. Isto é, a pessoa vive razoavelmente o dia de hoje, mas, de repente, dá por si e já está a pensar nela. Na posteridade. Já foi pior. Já foi melhor. Está cá para a vida.
Como é que acontecem os ataques, em concreto? Varia. Ultimamente, há um que é recorrente: dou comigo a olhar para os cantos da casa e a pensar se alguns deles será decente o suficiente para conceder entrevistas. Vejam qualquer depoimento em qualquer documentário. Aliás, para o efeito, basta espreitar o “60 Minutes”: toda a vedeta tem uma estante enfermada de livros. Sobrepostos, justapostos, razoavelmente organizados e desorganizados para dar aquele ar de uso constante. E uma secretária com os livros que se anda a ler e as papeladas e alguns bibelots exóticos de partes remotas do mundo. São provas de vida. Mas toda a gente sabe que, se o plano abrisse, via-se o fim do cenário. Sim, porque aquilo não existe. É um palanque montado, como nas flashinterviews no fim dos jogos. Ou os pódios da Fórnula 1.
Sim. Suspeito que, atrás da estante onde o António Barreto dá entrevistas, há uma marquise. E uma mega tela onde é projectada, sem som, a Sport TV 3, atrás da do Eduardo Lourenço.
Mas não tenho nada disso. E a angústia consome-me. Que é que eu faço quando, um dia destes, a qualquer momento, a imprensa começar a ligar para a espiral de entrevistas? As minhas estantes mal enchem o plano. O louceiro é demasiado baixo. Os gatos estariam sempre a passar diante do meu ar grave, a meio de uma citação de Rawls.
Depois, há o problema do computador. Como é que é quando um tipo morrer? Quando vierem caçar à viúva o espólio de inéditos? Levam-me a máquina e descobrem, na pasta ao lado dos poemas dedicados à Maria das Dores, no 7º ano, os vídeos da Jenna Jameson? Vão em busca do romance inédito e esbarram nas fotos do artista em pijama de estrunfes? Que deve um homem fazer? Apagar já tudo? E se eles nunca pedem os inéditos? E se um gajo demora a morrer? Tem de suportar o absurdo da vida sem estrunfes nem Jenna Jameson? Como?
Depois, há a questão dos amigos e conhecidos. Isto é muito importante. Depois de um tipo bater a bota, são eles que vão falar dele. Vão ser convidados para programas e conferências e botar faladura e nós não estaremos lá para fazer a defesa. Que se deve fazer, hoje, enquanto é tempo? Tratá-los bem, claro. Estudar umas frases boas para lançar para a mesa que eles possam citar depois. Ter um ou outro pequeno gesto heróico que eles possam contar, mais tarde, à Maria João Avillez. Agora, é bom que os cabrões tenham boa memória. Mas isso já não está nas nossas mãos…
Depois, isto passa. Vejo os meus gatos a brincar com joaninhas, trocam-me o nome com o da Alexandra Borges e telefonam-me da imprensa a pedir o número de telefone doutro gajo e fico porreiro.
Porreiro, sim. Que é para, um dia, não irem para os documentários dizer que eu era um arrogante insuportável.
Recordo, com saudade e algum tesão, as eleições da Miss Portugal. Era ainda no tempo em que o Festival da Canção era o acontecimento televisivo do ano e nada se lhe podia comparar, mas o concurso da Miss ocupava um honroso segundo patamar de nobreza. Era apresentado pelas mesmas peças de mobília, tinha ainda mais candidatos e uma vantagem: ninguém cantava. Por outro lado, não havia a chatice dos júris distribuídos por continente e ilhas, com os seus telefonemas cheios de feedback e vozes reais, contra a higiene inodora dos locutores de carreira. A coisa resolvia-se autoritária e aristocraticamente com um júri corajoso, cinzento, mudo e presente em estúdio.
Gostava de imaginar como tinham ali chegado algumas das candidatas. Para estarem ali aquelas, que aspecto teriam as trezentas não seleccionadas que também haviam, num momento de delírio, recortado o cupão do Correio da Manhã? Seriam mulheres, ao menos? E recordo-me da tese das pressões. Porque nunca ganhava a candidata preferida lá de casa, falava-se em pressões. Havia pressões para que ganhasse a Laudelina, de Porto de Mós, e não a Eulália, do Pedrógão Grande. Claro. Eram os interesses. Sabe Deus que poder ficava nas mãos da Miss ‘87 – Jesus. É melhor nem pensar.
Mas o coração da coisa, o cordão umbilical do meu amor àquela organização era um acontecimento muito específico: a eleição da Miss Simpatia. A Miss Simpatia é uma categoria como já não há. Era o lastro, a substância, a faceta séria da coisa. Ali se comprovava, à saciedade, a não-futilidade da eleição. Não estamos aqui a votar apenas a beleza física, não; também nos preocupamos com o interior. A Miss Simpatia já sabia, no momento em que lhe punham a faixa, que estava perdida. Não ganharia mais nada. Era simpática, queridinha, fofa, muito bonita por dentro – que pena ser tão lingrinhas. Ou marreca. Ou estrábica. Ou isso tudo ao mesmo tempo.
De algum modo, reconhecia-me nela. Sim, leitor. Creio que eu próprio fui sempre a Miss Simpatia. Um amor, um querido. Os colegas gostavam de mim à brava. E as raparigas. Que pena, pensariam elas, que os rapazes giros não fossem como eu.
Ostentar a faixa a dizer “simpatia” era o atestado final de fealdade. Um insulto da mais fina elegância. Mas elas sorriam, vinha-lhes a lágrima ao canto do olho, e pousavam, de mão na anca cavada pelo fato de banho encomendado a uma funcionária de uma retrosaria da Baixa, para os fotógrafos da sua interioridade.
Era lindo e cruel. Não sei se ainda se faz. Desde então passei a dar mais atenção às antipáticas raparigas que costumam fazer a capa das revistas masculinas. Manias…
Os curricula vitae têm sido, ao longo dos anos, um género literário menosprezado. Há ali mais imaginação, criatividade e génio no emprego da metáfora e da hipérbole que em muito bom romance contemporâneo. Alguns chegam mesmo a ter mais caracteres que, sei lá, um Pedro Paixão.
Espanta-me, aliás, que a maioria das pessoas diga que não tem talento para escrever. Modéstia. É pedir-lhes o currículo. De imediato, seremos transportados para todo um universo onírico, uma realidade paralela, à maneira de Tolkien. Tudo deve ser simbólico porque, à primeira vista, nada tem a ver com a pessoa concreta que temos diante de nós. No papel, desfila um ser maravilhoso e interessante, cheio de interesses artísticos e aptidões. Mesmo que tenha 15 anos, ele consegue encher três a quatro páginas de experiências enriquecedoras de trabalho. Se, um dia, substituiu o tio no café, tem, prontamente, experiência no ramo da hotelaria. Se passou uma noite na cadeia por conduzir embriagado, realizou trabalho de investigação na área do Código Penal. Se levou cinco anos para fazer uma cadeira do curso com 10 e, certa vez, perdido do bar, entrou por azar numa AG, o que a sua verve literária dará a ler será qualquer coisa como: frequência da Faculdade de Direito de Lisboa e activismo académico.
Inevitavelmente, todos gostam de viajar, ler e conhecer pessoas. São amantes de cinema e sentem um inquietante interesse pelo Budismo, a aprofundar em breve. Gostariam de ser voluntários da AMI e são todos muito sociáveis, excelentes a trabalhar em equipa e com muita capacidade de iniciativa e dinamismo.
Ora, a pessoa lê isto, baixa o currículo e confirma: sim, quem está diante de nós continua a ser aquele mono flácido com aspecto de ter feito exercício pela última vez quando se baixou para apanhar a roca, algures em 72, e de ser tão sociável e interessante como um parquímetro, e pensa: génio! Puro génio literário!
E há mais. Apesar de alguns abusarem, o CV tem, na generalidade, a dimensão ideal para a sociedade contemporânea: dá para ler no metro, levar para a praia, entreter um bocadinho na sala de espera para a lobotomia. Não maça como o romance, é ainda mais económico que o conto e, apesar do aspecto enxuto, não é hermético como a poesia.
E há ainda aquele requinte final, soberbo: a escrita na terceira pessoa. Esse acordo tácito entre autor e leitor, essa rara cumplicidade… Como se não fossem sempre os próprios biografados a escrever, naquele tom desinteressado, sobre si, e houvesse por aí profissionais do CV, a redigi-los em barda sobre toda a gente fascinante que conhecem…
Em conjunto, os CV da Humanidade são toda uma “second life”, um programa idealista, a cidade de Deus. Só gente maravilhosa, culta e trabalhadora.
Para quando, Assírio & Alvim, uma antologia da novíssima curricula nacional? Um compêndio só com os melhores CV do Modernismo? Um livro de citações com as melhores passagens dos CV dos alunos da Escola Profissional da Boavista dos Pinheiros?
Comigo, foi o verbo refulgir. Descobri-o, ou ele descobriu-me a mim, enquanto folheava um dicionário de sinónimos. Não há, aliás, segundo amor como o sinónimo. Foi por isso que, da noite para o dia, tudo deixou de brilhar e passou a refulgir. Não havia refulgência que eu não visse onde refulgência não houvesse. E que importava isso? Nada. Foram muitos dias passados a aguardar a oportunidade de martelar o verbo refulgir. Martela com eloquência (podia perfeitamente ter escrito loquela em vez de eloquência mas a minha humilde verbosidade aconselhou moderação na facúndia) aquele que se faz valer de um vocábulo desnecessário ou balofo para destituir de inteligência uma afirmação lexical e gramaticalmente correcta. O que faz de muitas conversas interessantes aquilo que na verdade sempre foram: pequenos suplícios.
Para muitos uma minudência da interacção, é na verdade o momento que melhor a define: uma palava incorrectamente utilizada e passamos de uma tertúlia nos Encontros da Arrábida para um mano-a-mano taberneiro em Brejos de Azeitão. Às tantas, damos por nós ali estacionados, com vista panorâmica para o nenhures do analfabetismo funcional, sem saber o que fazer, na tal terra onde os autóctones se assoam à gravata por engano. No Portugal profundo do falar caro, está-se lindamente entre iguais até alguém ter a coragem de nos corrigir ou, se tiver bom coração, fazer pouco dos nossos tiques. Ora bem. Foi muito assim que nas conversas me fiz portento: a refulgir para aqui e a refulgir para ali. Refulge-porque-repara-só, epá-tu-não-me-venhas-para- aqui-refulgir, vejam-senhoras-e-senhores-como-refulge, era-meia-de-refulgência-se-fizer-favor.
Tudo isto me fez esquecer durante anos a ancestral arte de ficar-mas-é-caladinho ou o engenho necessário para falar-mas-é-como-as-pessoas-normais. Mas lidar com a banalidade do nosso próprio discurso nem sempre é fácil. Às vezes precisamos de sobressair, temos mesmo que falar anormalmente. Bem ou mal, logo se vê. Muitos amigos meus, imbuídos de formação e feitio variáveis, serviram-se desse apelo da língua para cunhar uma social versatilidade com que, desde há muito, se fazem apresentar ao mundo. São gajos que sabem falar. Eles agora são assim. Porreiros, espirituosos, bem falantes, mas pouco representativos da nossa diversidade cultural. Na malha esburacada dos armazéns Regojo que é o tecido social português, encontramos outros tipos sociais, bem mais interessantes e complexos, que, imbuídos de formação e feitio variáveis, se serviram do apelo da língua para cunhar uma prosaica ignorância – não confundir com humildade – vulgarmente concentrada em duas ou três expressões. Pessoas que mandam a língua portuguesa às urtigas - não é que o façam por mal – desde que deram por elas a findar analiticamente que, para se dizer ao mundo que se sabe falar, chegam perfeitamente dois ou três exemplos cirurgicamente aplicados em todo e qualquer momento oportuno, leia-se, por tudo e por nada.
Às vezes um só exemplo basta. Que o diga uma secretária chamada Filomena que tive o prazer de conhecer e a quem optei por dar o nome verdadeiro para salvaguardar a sua identidade. Enquanto secretária, Filomena cumpre a promessa dos honorários pagos pelo patrão: uma “problem solving attitude” impecável, “analytical thought” cinco estrelas, “multitasking abilities” de um gajo ficar banzado, e “interpersonal skills” como há muito não se via. Do que carece então a talentosa normalidade de Filomena? De uma marca registada de inteligência. Faltava a Filomena patentear uma outra forma de secretariado. Não lhe chegava o sorriso, ser expedita, tratar de coisas. Filomena quis salvar do esquecimento os seus préstimos diários e foi por esse motivo que começou a usar a expressão a priori. Hoje, seja o que for que Filomena tenha para nos dizer, cabe lá a expressão a priori. Liga-se para lá e o doutor, a priori, não está. Mas não desespere aquele que tenta falar com o doutor, porque a priori foi só ao dentista e é coisa para demorar pouco. Se porventura ligar para lá em Agosto, a priori o doutor há-de estar a torrar na Praia do Vau, por isso volte a ligar início de Setembro. Quando Filomena emprestou a sua voz para gravar a mensagem do atendedor de chamadas, saiu-se com um ‘a priori a sua chamada é importante para nós’. Quem quisesse que aguardasse uns minutinhos a posteriori.
Segundo a Wikipédia, a priori, do latim ‘partindo daquilo que vem antes’, traduz uma anterioridade lógica e não cronológica. Nada mais correcto. Quando Filomena começa uma frase fazendo uso de ‘a priori’, parte daquilo que precede toda e qualquer afirmação sua: as muitas aulas de português a que faltou, aquele pragmatismo tão português de quem passou um exame sobre Os Maias sem os ler, ou a leitura das partes que interessam do Cavaleiro da Dinamarca. Ao consagrar esta forma de portugalidade, Filomena forja uma nova história, daquelas que não encontramos na Wikipédia. Assim, a priori não terá sido usado pela primeira vez por Alberto da Saxónia no século XIV, mas sim pelo Alberto do talho, coleccionador de dizeres invulgares que jamais algum carnívoro de Ramada ousou corrigir. A teoria foi afiada ao longo dos anos por Alberto, vulto filosófico-cortante do séc. XXI, e demorou pouco a consolidar-se entre os atentos: mais ou menos o tempo de se raspar a gordura de uma pá de porco. E é assim que a língua há-de perdurar e desdobrar-se, até ao dia em que formos obrigados a regressar à gramática - Deus nos livre – ou conhecermos um talhante que leu Os Maias. O que seria brilhante, mas refulge muito pouco.
Vasco Mendonça
A pessoa com quem vivemos foi, frequentemente, o nosso melhor público. No início mitológico de cada relação, o outro ri-se de todas as nossas piadas, acha violentamente interessantes todas as nossas observações, quer saber tudo sobre o que fazemos e acompanhar de perto cada novidade. Depois, isso passa. É natural. Mas faz espécie – passe o palavreado técnico – que, um belo dia, a contraparte se torne o exacto oposto do que fora outrora, isto é, passe de maior fã da nossa arte a público mais difícil de todos. Ou seja, um tipo começa a namorar com o arraial de Alfama e dá por si a acordar com o grande auditório da Gulbenkian.
Nem sempre acontece. Há casos – não sei se motivados por alguma doença – de velhinhas que continuam a gargalhar em decibéis desaconselháveis ao tímpano humano a cada graçola batida atirada pelo seu velho homem. É um acontecimento muito terno, mas com o seu quê de insuportável.
O que mais se dá, pois, é a mariocastrinização da/do companheira(o). Toda a gente ri das nossas façanhas, ela olha as horas. Seguem suspensos as nossas aventuras épicas no escritório, ela boceja. Desconhecidos rasgam elogios a um pedaço de carpintaria ou literatura que tenhamos produzido, ela aponta, fria e sadicamente, todas as imperfeições que parece considerar por demais evidentes.
São paragens menos turísticas do amor, mas estão lá. Descobrimo-las quando vamos para lá viver, quando passamos de estrangeiros em visita a emigrantes com visto permanente.
E, no fundo, só queria pensar nisto: um tipo, se vive em Roma, deixa rapidamente de admirar o Coliseu. O Coliseu, por mais extraordinário que seja, tornar-se-á a sua paisagem habitual, o seu fim da rua a caminho do trabalho, ao final do dia, parte rotineira do cansaço e do tédio. Está lá como está o Pingo Doce da nossa rua, a casa decrépita, a vitrine da loja de loiças para casa de banho. O espanto, o maravilhamento, não foi feito para os dias, mas para um momento triunfal das nossas vidas. Mas, com paciência e realismo, numa manhã qualquer, o Coliseu voltará a revelar-se em toda a sua grandeza. E o tipo que lá vive ao pé voltará a deslumbrar-se e a sentir-se abençoado.
Não que nós sejamos o Coliseu. Mas há uma incompletude que temos em comum.
A MAN'S gotta do what a man's gotta do», diria John Wayne ou outro como ele. A frase parece redundante, mas não é; e o pior é que está a cair em desuso. Hoje, os homens já não fazem o que têm de fazer, mas o que pensam que toda a gente faz. Mais grave ainda: vão onde toda a gente vai, mesmo que isso signifique ir a um «cabeleireiro unissexo».
Das modernas perversões, não consigo imaginar nenhuma pior do que os cabeleireiros unissexo. Não é só a perda de mais um universo masculino - é o abandalhamento de um ritual de iniciação. Ir ao barbeiro desde menino, acompanhado pelo pai, é um dos hábitos mais saudáveis para a educação de um rapaz. Logo em pequeno aprende a conviver com conversas sobre mulheres, política e futebol enquanto é acarinhado por aquele que, a partir desse momento mágico, irá ser o seu barbeiro. Ao longo dos anos, o barbeiro torna-se cúmplice na vida do adolescente: fala-lhe dos estudos, da vida, conta anedotas, pergunta-lhe como estão os pais, estimula namoros e pequenas marialvices. Aos poucos, o rapazinho vai sendo capaz de acompanhar e começar as conversas que ouvia quando pequeno, e a partir daí nasce uma grande amizade. Agora, expliquem-me como isto é possível num «cabeleireiro unissexo».
O genuíno barbeiro-amigo tem de possuir várias características. Primeiro, é bastante recomendável que seja herdado, isto é, que o nosso pai já tenha sido (ou ainda seja) cliente habitual. Depois, um verdadeiro barbeiro deve ter obrigatoriamente um engraxador que saiba tudo sobre futebol e uma ou mais manicuras que independentemente da idade sejam tratadas por «meninas». Pessoalmente, não gosto de barbeiros localizados nas zonas novas da cidade (o meu é na Rua dos Correeiros, aqui em Lisboa), mas admito que se trate de uma posição radical.
O homem civilizado, o que não vai a cabeleireiros unissexo falar de estilismo e da dança no ACARTE, tem uma fidelidade canina ao seu barbeiro. Cada vez que, por motivos de força maior, vai cortar o cabelo num estabelecimento desconhecido, sente cada golpe de tesoura como uma traição amorosa e um sentimento de culpa do tamanho do mundo. Francamente, nos tempos que correm, é assim que cada vez mais deveria ser.
[crónica publicada na revista K, nº19, 1992. Não tive de retirar uma única linha ou de alterar seja o que for.A foto é a que ilustrou o artigo na sua edição original]
Hoje é assim, sabemo-lo: um tipo - um tipo novo, acabado de sair das Faculdades - tem qualidades, talentos, vocações, vontade de suar e disciplina e mesmo assim fica fora dos empregos. Mesmo daqueles a recibinho verde. O toque de bola e o esforço não chegam. Escrevo sobre o assunto porque assisti recentemente a um caso (um desses de talento e de trabalho) de alguém que não ficou a trabalhar na empresa que merecia e que o merecia. Porque, citando um chato qualquer do linguajar económico, as condições de mercado, neste momento, não são favoráveis à contratação de pessoas.
Isso chateia. De facto chateia. Dá logo vontade de ajudar a miudagem, de lhes pôr uma cunha (a boa cunha, que também a há, convém recordá-lo nesta altura de malhanços vários na instituição), de ligar a amigos, inimigos e amantes a atazanar-lhes a cabecinha com o currículo do rapaz. Com mais do que isso – que essa coisa do currículo muitas vezes não chega; é, demasiadas vezes, matéria morta e vaga. É preciso mostrar ao mundo laboral o trabalho, o bom trabalho do cidadão. O sapateado do bicho. Em polaroids, DVD’s ou animações de rua.
E é preciso também que a rapaziada recusada, momentaneamente recusada, não entre tão depressa nessa noite escura que é a conversinha do lamento e do “só neste país” e do, para lembrar o texto de ontem do Pedro, “é a crise, não posso fazer nada”. Porque isso é converseta de esquina, daquela que não nos faz dar nem um passo, nem um passinho que seja, de esquilo anão. É, é aqui que entra o meu discursozinho liberal (também tão espancado, tão facilmente espancado por estes dias), filosoficamente liberal, psicologicamente liberal, estuporadamente liberal. Se calhar convém, como é que se diz mesmo?, ir à luta. E o que é que isso da luta?, pergunta-me o Zé Ferdinando. Isto, provavelmente: se não dá aqui, dá ali. Se não consigo que me recebam acolá, dou três cambalhotas para ser recebido acolará. Até que, chamem-lhe fé, chamem-lhe fezada, chamem-lhe delírio, alguma coisa de boa, vá, de menos má - que eu quero acompanhar as poses intelectuais da minha época- aconteça.
Lembro-me agora de um belo de um papelote que um tio, vivido durante uns anos em Filadélfia (e noutras Américas), me deixou, um dia, em cima da mesa melancólica e desistente. Tinha uma frase escrita a caneta e em maiúsculas: “Do it”. Do it? Sim, do it. Vai virar frangos, se for preciso. Mas do it. Não esmoreças, André. Não te fiques. Continua o sapateado.
A Suíça faz racista o multiculturalista. Tornou-se urgente fugir da clínica e tenho andado a monte e numa existência de caçador-recolector que terá consequências no futuro desempenho da minha actividade profissional. Escrevo-vos do Languedoc. Paguei pela primeira vez a uma prostituta, mas para me afrouxar as correias da camisa-de-forças. Isto não é um sinal de vida, é uma demonstração de sobreviviência. Até já.